O carvalho sempre foi a referência quando se fala em maturação de bebidas como vinhos, destilados e cervejas envelhecidas. No Brasil, porém, um movimento crescente está mudando esse cenário: cervejarias artesanais estão experimentando madeiras nacionais para criar perfis sensoriais únicos.
Espécies como castanheira, bálsamo, cumaru e amburana estão sendo usadas no lugar do carvalho europeu ou americano. Cada uma delas contribui com combinações distintas de aromas, sabores, taninos e textura à cerveja, transformando a madeira em um ingrediente ativo, e não apenas um recipiente.
Um exemplo de sucesso é o Projeto Terminus, da Daoravida Brewpub, em Campinas (SP). A cervejaria criou uma linha de safras anuais que passam por longos períodos de maturação em diferentes madeiras. Inicialmente, usavam carvalho americano, mas a partir de 2024 passaram a testar um blend de castanheira, bálsamo e cumaru. A experiência foi tão positiva que o carvalho foi substituído. A safra de 2025 foi maturada em bálsamo; a de 2026, em castanheira.
Essa aposta rendeu reconhecimento internacional. A Terminus 2026 conquistou medalha de ouro na categoria Wood-and-Barrel-Aged Strong Beer do World Beer Cup, uma das competições mais importantes do setor, com mais de 8 mil inscrições de 50 países. Para Wagner Falci, cervejeiro da Daoravida, o objetivo é entender o potencial de cada madeira e construir uma identidade própria, em vez de apenas copiar características do carvalho.
O processo de produção da Terminus é artesanal e demorado: cerca de 30 horas de trabalho, contra quatro horas de uma receita convencional, seguidas de mais de um ano de maturação. A cerveja atinge 15,5% de teor alcoólico e é feita para ser guardada e consumida ao longo do tempo, permitindo comparações entre safras que evidenciam as mudanças provocadas pela madeira escolhida.
Embora ainda seja uma prática pontual, a iniciativa aproxima inovação na produção de bebidas e aproveitamento da biodiversidade brasileira. Em vez de usar espécies nativas apenas como matéria-prima, a cerveja artesanal abre novas possibilidades de valorização gastronômica desses recursos.