Couro de peixe do Paraná conquista Indicação Geográfica e brilha no São Paulo Fashion Week

O couro de peixe produzido em Pontal do Paraná, no litoral do estado, vai ganhar os holofotes de um dos maiores eventos de moda do mundo. Entre os dias 13 e 18 de outubro, o material sustentável será apresentado no estande do Sebrae durante o São Paulo Fashion Week (SPFW), representando o Paraná. A expectativa é que estilistas e profissionais da moda conheçam de perto essa alternativa ecológica, que já conquistou o primeiro registro de Indicação Geográfica (IG) do Brasil para couro de peixe, concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) neste ano.

A artesã Ana Maria de Almeida, presidente da Associação Couro de Peixe de Pontal do Paraná, não esconde a emoção. “É muito orgulho, ainda não caiu completamente a ficha”, comemora. Ela e outras 14 artesãs da associação terão seus produtos expostos no evento, mostrando peças como cintos, colares, brincos, bolsas e itens de decoração feitos a partir da pele de peixes como robalo, linguado e tilápia.

Processo sustentável e certificado

O projeto nasceu em 2007, por meio do programa Universidade Sem Fronteiras, da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), e o curtume artesanal foi viabilizado por uma parceria entre a prefeitura local, a Unespar e o governo do Paraná. A ideia era transformar o descarte da pesca artesanal – antes um resíduo que poluía o ambiente – em matéria-prima de alto valor. “Com isso, foi possível agregar valor a um produto que até então era descartado como rejeito”, explica Ana Maria.

Atualmente, a produção mensal gira em torno de 200 quilos de couro de peixe. O processamento é semiartesanal e utiliza tanino vegetal como agente de curtimento, o que garante um material resistente, de alta durabilidade, livre de odor e sem metais pesados. “Além da qualidade, é importante frisar que o produto não oferece risco para quem irá manuseá-lo”, destaca a artesã.

Características únicas e valorização social

Maria Isabel Rosa Guimarães, gestora estadual das Indicações Geográficas pelo Sebrae Paraná, ressalta que o couro de peixe da associação é valorizado pela integridade do desenho da “flor” – a marca natural da pele de cada espécie. “Esse desenho é único para cada espécie e inimitável”, comenta. A espessura da pele selecionada para o processamento deve ser compatível com a resistência mecânica, maciez e ausência de imperfeições.

A gestora do Sebrae também enaltece o aspecto social da produção: ao longo de quase duas décadas, o projeto evoluiu para uma prática comunitária consolidada, com foco no protagonismo feminino e na sustentabilidade. As artesãs têm acesso ao couro a preço de custo, e o carro-chefe da associação é a venda do próprio couro – uma peça pequena sai por R$ 8, enquanto uma peça grande de robalo ou pescada amarela pode chegar a R$ 60.

Espécies e expansão

A Indicação Geográfica preconiza todo o processo, desde a aquisição e limpeza da pele até o congelamento, secagem, tingimento, amaciamento e comercialização. Entre as 16 espécies aptas a originar o couro estão linguado-abaxial, robalo flecha, robalo peva, parú, corvina, pescada amarela, miraguaia, tainha, prejereba, peixe porco, cavala e tilápia cultivadas no litoral paranaense.

Com a IG, as artesãs já expandiram o mercado para além do artesanato local, alcançando feiras nacionais e iniciando a exportação em pequena escala. A meta agora é ampliar a produção, especialmente após a lei municipal 2.689/2025, que declarou Pontal do Paraná como Centro de Produção de Couro de Peixe. O município, junto com Paranaguá e Antonina, é um dos principais do litoral na produção de pescado marinho, com capturas anuais médias de 2,5 mil a 3 mil toneladas de peixes.

O couro de peixe é indicado não apenas para a moda, mas também para as indústrias de calçados, confecções e móveis, consolidando-se como uma alternativa sustentável e inovadora no cenário nacional.

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