Uma tecnologia desenvolvida pela Embrapa está revolucionando o trabalho de famílias extrativistas na Amazônia. O aplicativo NetFlora, que originalmente servia para identificar espécies madeireiras, agora também é usado para mapear castanheiras e orientar os coletores dentro da floresta, aumentando a produtividade e a renda.
Com 98% de assertividade, segundo o pesquisador Luciano Ribas, da Embrapa Acre, o NetFlora combina uma base de dados com inteligência artificial para criar inventários florestais completos em poucos minutos. No último ano, a ferramenta passou a ser testada como aliada dos extrativistas.
A extrativista Eliane Santos, de 34 anos, que atua em Lábrea (AM), ficou surpresa ao ver na tela do celular o mapeamento das castanheiras da sua área. “Eu não sabia que tinha tanta castanheira”, conta. Ela decidiu verificar: olhou o mapa, identificou uma região com cinco pontos e foi a pé. “Botei o celular na mão e entrei no mato. Olhei lá, e onde estavam os cinco pontinhos eram as castanheiras”, relata.
Antes, Eliane e sua família trabalhavam sempre nas mesmas 60 árvores. Com o aplicativo, descobriram que poderiam manejar mais de 150 castanheiras na mesma zona de atuação. O mapeamento, feito com drone, ampliou o alcance de visão dos extrativistas de 70 metros para até 200 metros. Em apenas 15 dias, a tecnologia já permitiu mapear 28 mil hectares.
Com a ampliação do raio de ação, os extrativistas podem planejar melhor o trabalho. Em anos de baixa produção, conseguem se organizar para atuar em uma área maior e compensar a menor produtividade por árvore. Já em safras cheias, podem mobilizar mais pessoas para aumentar a coleta.
O aplicativo também reduz o tempo de deslocamento. Segundo Eliane, trajetos que antes levavam mais de uma hora agora são feitos em até 20 minutos, com rotas mais curtas indicadas pelo NetFlora. Em um ano de uso, ela aumentou sua produção em 62% e, consequentemente, sua renda.
De acordo com Ribas, a identificação mais precisa das castanheiras pode aumentar a coleta em até 197%. No entanto, esse potencial depende da capacidade das famílias extrativistas de ampliar sua força de trabalho, seja mobilizando mais pessoas ou usando tração animal.
“Agora a gente pretende levar essa tecnologia para cooperativas de extrativistas para mostrar que ela está disponível e que tem acesso livre no site da Embrapa”, afirma o pesquisador.