Banco do Brasil prevê retomada do agronegócio apesar dos desafios do El Niño

Apesar da inadimplência ainda em alta e da perspectiva de um El Niño muito forte na safra de verão brasileira, o vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar do Banco do Brasil, Gilson Bittencourt, enxerga a possibilidade de “retomada” do setor nos próximos meses, especialmente em função da renegociação das dívidas.

Bittencourt pontuou que, apesar das dificuldades, o setor continua “resiliente” e capitalizado. O problema, segundo ele, é a falta de liquidez. “Quando olhamos as últimas quatro ou cinco safras, vemos aumento de área, aumento de produção e aumento de produtividade. O produtor não consegue ter aumento de produtividade e de área se não usa insumos. E para usar os insumos, ele precisa de recursos. Apesar de todas as dificuldades e da inadimplência, o agro se mantém resiliente”, afirmou em teleconferência de apresentação dos resultados do segundo trimestre de 2026 do BB.

“O agro se capitalizou, especialmente quando os preços estavam bons. O que temos é falta de liquidez, pois parte importante da renda foi imobilizada, e isso dificultou porque o produtor teve que buscar capital a um custo mais alto”, ponderou. “Eles não estão descapitalizados, mas sem liquidez”, completou.

A perspectiva do BB é manter o financiamento ao setor, mas com “mais cuidado e mais garantia”, ressaltou Bittencourt. Ele admitiu a possibilidade de haver “problemas localizados”, mas reforçou o otimismo com a melhoria do setor como um todo. “Vamos ter problemas localizados, sim, mas a expectativa do agro é de retomada, para uns mais rápido e para outros um pouco mais lenta”, completou.

A velocidade dessa recuperação dependerá, em boa parte, do acesso à renegociação das dívidas via Medida Provisória 1.376/2026, com a qual o BB pretende refinanciar, pelo menos, R$ 30 bilhões em taxas controladas. O potencial enquadrado é de R$ 100,2 bilhões. Outro componente importante será o El Niño. A ocorrência do fenômeno climático, com intensidade muito forte, também deve influenciar no apetite ou formato dos novos financiamentos.

“Estamos preocupados e acompanhando de perto o El Niño”, disse o vice-presidente do BB. “Temos 280 profissionais de ciências agrárias analisando em tempo real o que está acontecendo e gerando expectativas para que possamos fazer contratações mais estruturadas, com mais seguro, seja Proagro ou o normal”, afirmou. “Estamos atentos, mas nem por isso vamos deixar de financiar a produção. Estamos fazendo financiamentos com muito mais cuidado, olhando a perspectiva de tendência nessas regiões, para que possamos minimizar o máximo possível o impacto nos nossos financiamentos”, completou.

O BB tenta incentivar investimentos em irrigação, para atenuar efeitos da seca, e a ampliação do plantio direto, técnica que ajuda a reter umidade no solo. Bittencourt ponderou que a ocorrência do El Niño não significa, necessariamente, redução na produção agropecuária. Segundo ele, ao analisar os episódios de ocorrência do fenômeno no Brasil nos últimos 20 anos, o volume total de grãos produzidos não foi tão afetado. “A perda efetiva do país é muito pequena. Ela é grande quando olhamos alguma região específica ou produto específico. Mas, no conjunto da produção brasileira, o que tem de perda em uma região tem de melhoria de produtividade em outra”, disse.

No cenário de margens mais espremidas por conta do encarecimento dos insumos, Bittencourt reforçou a necessidade de um planejamento mais acurado dos produtores. “É fundamental que o produtor trabalhe com muito planejamento, que analise economicamente qual área tem maior e menor custo, onde vai investir mais, o que é melhor repensar em fazer. O El Niño traz mais responsabilidade e necessidade de planejamento (…) Não é responsabilidade e ação exclusiva do agente financiador, mas de toda cadeia envolvida”, completou.

Deixe um comentário

Powered by Joinchat
Anunciar grátis