O automobilismo de competição vem, nos últimos anos, mudando padrões e regulamentos com a premissa de ser referência e reflexo de um movimento global: o aumento do uso de energia limpa na mobilidade. Para os fornecedores, é uma forma de testar produtos até o limite e entender como as tecnologias podem migrar para veículos de produção no futuro. Para as categorias, o desafio é incorporar fontes de energia mais limpas sem comprometer a essência do esporte: a performance, a emoção e a competitividade.
“Automobilismo é uma vitrine. O combustível é testado nessas competições até que se consiga chegar a uma escala de produção para levar às ruas”, define Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA).
Mas o que as corridas de carro têm a ver com a agropecuária? A resposta está na matéria-prima utilizada para substituir o combustível fóssil. Referência mundial em bioenergia e com grandes áreas degradadas que podem se tornar produtivas, o agro brasileiro tende a se beneficiar da exposição das pistas, analisa Gonçalo Pereira, pesquisador da área de energia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “O Brasil mostrou que era possível produzir energia na superfície da Terra com uma densidade que rivalizava com o petróleo, ou seja, um caminho de sustentabilidade. Se você tem o automobilismo mostrando isso ao mundo, ajuda”, frisa.
Em 2026, a Copa Truck, categoria brasileira de corrida de caminhões, passou a usar biocombustível. A brasileira Be8 tornou-se a fornecedora oficial, abastecendo todas as equipes com o BeVant, produzido a partir da bidestilação do biodiesel. “Levamos o combustível para uma situação extrema de velocidade, rotação de motor e carga térmica e podemos coletar dados precisos para que, no futuro, possamos aperfeiçoá-lo”, afirma Camilo Adas, diretor da empresa. O combustível é produzido na unidade de Passo Fundo (RS), utilizando como matéria-prima soja (70% do total), gordura animal e óleo de cozinha usado. A proposta é substituir totalmente o diesel em veículos pesados e máquinas agrícolas, com redução de até 99% das emissões em relação à mistura de 15% de biodiesel no derivado de petróleo.
No World Endurance Championship (WEC), o combustível sustentável dos carros tem como base um bioetanol feito de bagaço e casca de uva. Já no Brasil, a presença dos biocombustíveis nas pistas não é nova: na década de 1970, com as crises do petróleo, o governo propôs o uso do etanol e, em 1979, o Autódromo de Jacarepaguá recebeu o Festival do Álcool. Atualmente, competições como Nascar Brasil, Copa Hyundai HB20 e categorias de terra utilizam 100% etanol, enquanto o Campeonato Brasileiro de Endurance usa mistura de 50% de gasolina e etanol.
Para o CEO da Be8, Erasmo Carlos Batistella, a divulgação nas pistas amplia oportunidades de mercado. “Transportadores, montadoras, concessionárias estão olhando o que acontece aqui, e esse movimento amplia oportunidades de mercado.” A Copa Truck também se beneficia: a competição reúne os principais fabricantes de caminhões do Brasil e seu regulamento prevê o controle de emissões. O CEO da categoria, Carlos Col, afirma que a mudança trouxe redução de emissões e melhora de performance, além de atrair empresas do agro, como a ATTO Sementes, que anunciou patrocínio em junho.
O diretor de engenharia da FIA, Thomas Chevaucher, destaca que os processos de desenvolvimento dos combustíveis nas pistas podem passar por ajustes, mas o caminho é sempre o da sustentabilidade. O piloto e comentarista Felipe Giaffone completa que a evolução tecnológica das categorias acompanha as tendências da indústria automobilística, e a corrida deve seguir o mesmo padrão.