Brasil e Uruguai discutem troca de cotas de carne bovina para ampliar exportações à China

Com o esgotamento da cota de exportação de carne bovina para a China em 2026 já na metade do ano, o Ministério da Agricultura propôs ao governo do Uruguai uma “troca” de volumes autorizados entre os países que poderia incrementar as vendas brasileiras para os chineses em 100 mil toneladas a partir de 2027, apurou a reportagem. A quantidade equivale a quase um mês de embarques e mais de meio bilhão de dólares em receita nas cotações atuais da proteína.

Na negociação, o Brasil ofereceu repassar aos uruguaios a sua parcela da cota do Mercosul de exportação de carne bovina resfriada para a União Europeia de 2027 com tarifa reduzida. Uma fonte afirmou que o volume giraria em torno de apenas 7 mil toneladas. Em troca, o Uruguai abriria mão de 100 mil das 331 mil toneladas que tem para exportar para os chineses no ano que vem.

O Uruguai teria dado aval à permuta dos volumes com validade a partir de 2027, mas o setor frigorífico brasileiro resistiu e a medida não foi concretizada entre os governos sul-americanos, disseram fontes. Consultado, o Ministério da Pecuária, Agricultura e Pesca uruguaio não respondeu. O ministério brasileiro não retornou. A Associação Brasileira da Indústria de Carnes (Abiec) não comentou.

Fontes afirmam que a medida não avançou por pressão de grandes companhias frigoríficas, que não querem perder espaço na União Europeia. O mesmo posicionamento tem sido levado ao governo para tentar uma proibição do uso de antimicrobianos para atender exigências sanitárias dos europeus. Por outro lado, pequenos e médios frigoríficos defendem a troca. Muitas empresas são dependentes do mercado chinês e chegaram a desligar funcionários e dar férias coletivas com o esgotamento da cota chinesa. A interrupção das vendas deverá afetar o caixa dessas companhias. Um eventual acordo com os uruguaios abriria pelo menos mais um mês de vendas para os asiáticos e ajudaria a mitigar os efeitos financeiros para esses abatedouros.

Os frigoríficos uruguaios não enfrentam barreiras para exportar para a UE, ao contrário do Brasil, que ainda não comprovou controle de não uso de antimicrobianos na carne enviada ao bloco. Por isso, apontam fontes, a troca de cotas seria viável e rentável para ambos os países. A Europa paga mais pela proteína. O preço médio pago pela carne brasileira neste ano está em US$ 9,1 mil por tonelada em cortes nobres de carne in natura, de acordo com dados da Abiec. A China desembolsa cerca de US$ 6,2 mil por tonelada, mas para peças de menor valor agregado no Brasil.

Outra fonte que acompanha o assunto disse que a troca de cotas não enfrentaria resistência do governo chinês e poderia ser viabilizada em um arranjo entre os países. O Mercosul tem uma cota de 99 mil toneladas de peso carcaça (55% de carne resfriada e 45% de congelada) para exportar para a UE com tarifa reduzida de 7,5%. Esse volume, no entanto, só será atingido no sexto ano de vigência do acordo comercial, em 2031. Até lá, o volume será crescente a cada ano. Em 2026, por exemplo, a cota com redução tarifária do Mercosul é estimada em 11 mil toneladas. Para 2027, serão 33 mil toneladas. Dessas, 18,1 mil toneladas serão de carne resfriada. A quantidade total será dividida entre os quatro países-membros. O Brasil, principal produtor e exportador, deverá ficar com a maior fatia, de pouco mais de 40%. Das 18,1 mil toneladas de carne bovina resfriada, cerca de 7,6 mil toneladas seriam do Brasil e entrariam no acerto com os uruguaios. A divisão oficial, no entanto, ainda não foi feita no âmbito do bloco sul-americano. É esse volume que o governo brasileiro ofereceu ao Uruguai em troca de 100 mil toneladas para a China com tarifa de 12,5%.

O Uruguai tem cota de 324 mil toneladas para a China em 2026, mas exportou menos de 25% até maio, de acordo com dados oficiais do governo chinês. O ritmo é diferente da venda dos frigoríficos brasileiros. Oficialmente, já foram preenchidos 65% da cota de 1,1 milhão de toneladas neste ano, mas como há volumes em trânsito, os abatedouros já suspenderam a produção específica de cortes aos chineses e novos embarques em julho. Há um estranhamento entre conhecedores do assunto sobre as razões que levaram o setor frigorífico a negar o acordo com os uruguaios. “O Brasil vai ficar pelo menos dois anos sem cota para a União Europeia e não quis trocar por uma cota maior para a China”, disse uma fonte.

No setor pecuário, a aposta é que o movimento tem como finalidade forçar queda no preço da arroba internamente. O Brasil, na teoria, manteria sua cota Hilton para a UE, de quase 8,9 mil toneladas, que teve a tarifa de 20% zerada após a entrada em vigor do acordo Mercosul-UE. Fora dessa cota, a tarifa é de 12,8% sobre o valor da mercadoria no embarque, acrescida de € 3,04 por quilo. As vendas para a Europa, no entanto, podem ser suspensas a partir de setembro por conta do uso de antimicrobianos.

Uma fonte do governo uruguaio disse à reportagem que o tema não foi levado a frigoríficos e pecuaristas, mas que a negociação é vista como razoável pela amizade dos países e complementaridade dos mercados. Ela afirmou ainda que a medida seria positiva e “aceitável” não só para 2027, mas que fosse definida para o futuro. Dados do Instituto Nacional da Carne (Inac) do Uruguai mostram que o país exportou 23 mil toneladas de carne bovina para a União Europeia no primeiro semestre deste ano, volume 36% menor que os embarques do mesmo período do ano passado (36,2 mil toneladas) e em linha com a quantidade enviada nos seis primeiros meses de 2024 (23,9 mil toneladas). As vendas para a China somaram 82,7 mil toneladas de carne bovina de janeiro a junho deste ano, 12% menos que as 94 mil toneladas do mesmo período de 2025 e 19% menos que o primeiro semestre de 2024 (102 mil toneladas).

Deixe um comentário

Powered by Joinchat
Anunciar grátis