Praticamente todo gaúcho conhece pelo menos um trecho do “Canto Alegretense”, canção nativista composta em 1980 pelos irmãos Nico e Bagre Fagundes. A música, que se tornou símbolo da cultura do Rio Grande do Sul, exalta o município de Alegrete e também destaca elementos do Pampa Gaúcho pouco conhecidos pelo público urbano. Um deles é o “camoatim de mel campeiro”, mencionado na letra — e que muita gente canta sem saber o que é.
Apesar do nome peculiar, o camoatim é uma pequena vespa muito comum no Rio Grande do Sul, com nome científico Polybia scutellaris. “Ela pode ser reconhecida pelas duas placas amarelas que possui dorsalmente no tórax. Além disso, o ninho desta espécie é espesso e ornamentado com projeções que lembram espinhos”, explica o biólogo Ricardo Siewert, professor do Departamento de Ecologia e Evolução da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Como a música já indicava, o camoatim é uma das poucas vespas da América do Sul que produz e armazena pequenas quantidades de mel. No entanto, o produto — também obtido a partir da coleta do néctar de flores — é biológica e economicamente muito diferente do mel das abelhas.
A principal diferença está na função. Para as vespas, o mel é uma reserva energética secundária, enquanto nas abelhas ele é a base alimentar da colônia. Em relação ao mel da abelha doméstica (Apis mellifera), o do camoatim costuma ser mais líquido, menos viscoso e bastante aromático. Porém, é produzido em volumes muito reduzidos, o que inviabiliza sua exploração comercial.
“Não existe uma criação racional equivalente à apicultura ou à meliponicultura (criação de abelhas sem ferrão). Isso ocorre porque os ninhos são frágeis para transferência; as colônias enxameiam e podem durar muitos anos, mas são difíceis de dividir artificialmente; produzem pouco mel; e são vespas com ferrão funcional, tornando o manejo arriscado”, destaca o especialista.
Antigamente, entre populações campeiras do Rio Grande do Sul, Uruguai e norte da Argentina, era comum colher o mel de ninhos de camoatim encontrados em galpões, cercas e matas. “Não se tratava de uma criação, mas de um extrativismo ocasional: o ninho era aberto e o pequeno volume de mel consumido imediatamente, muitas vezes como iguaria ou remédio caseiro”, comenta Siewert.
O camoatim não é considerado uma espécie ameaçada de extinção. Ainda assim, suas populações podem sofrer declínios locais devido à perda e fragmentação de habitat, uso intensivo de agrotóxicos, remoção de ninhos por perseguição humana ou destruição por eventos climáticos extremos, como tempestades, vendavais e ondas de calor.