A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) avaliou como positiva a possibilidade de uso do excedente da cota uruguaia de exportação de carne bovina para a China, anunciada na última segunda-feira (21/9) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No entanto, a entidade ressalta que um eventual aproveitamento do volume não ocupado pelos uruguaios — medida que ainda depende de aval de Pequim — teria “efeito limitado” em 2026, devido ao tempo necessário para negociação, embarque e trânsito da mercadoria até o país asiático.
Na avaliação do setor, os negócios com uso da cota uruguaia coincidiriam com a retomada das vendas brasileiras para preenchimento da cota de 2027, que deve começar no fim de outubro e início de novembro, com previsão de chegada das cargas na China em janeiro.
A medida pode ser importante para os frigoríficos nacionais no ano que vem, diante da perspectiva da Abiec de que a cota brasileira, de 1,128 milhão de toneladas, se esgote até abril. “Para 2027, a medida pode representar uma alternativa importante, especialmente diante da cota brasileira de 1,128 milhão de toneladas e do risco de seu esgotamento já nos primeiros meses do ano, caso se mantenha o atual ritmo de vendas. A Abiec vem defendendo previsibilidade e mecanismos que permitam distribuir melhor os embarques ao longo do ano, preservando o fluxo comercial com o principal destino da carne bovina brasileira”, informou a entidade em nota.
O governo brasileiro não divulgou detalhes da negociação nem como a medida será implementada. A avaliação entre lideranças do setor, analistas de mercado e membros da Esplanada dos Ministérios é a de que a concretização do acordo entre Brasil e Uruguai depende do aval oficial da China. No início do ano, Pequim negou pedido brasileiro para a redistribuição de cotas não utilizadas para outros fornecedores.
Consultados, os ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) não se posicionaram. Uma fonte de Brasília ressaltou que o anúncio foi fruto de uma conversa entre presidentes, mas que ainda não há nada oficializado. O Itamaraty disse que o tema deve ser respondido pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República, que ainda não retornou.
O setor frigorífico brasileiro tentou convencer o governo a adotar um mecanismo de divisão da cota desde o início do ano, sem sucesso. A gestão dos volumes autorizados é feita pelo Ministério do Comércio da China (Mofcom), no âmbito da salvaguarda chinesa de proteção à indústria local, o que impediria o controle pelo país exportador. Houve receio em Brasília de que alguma medida nesse sentido pudesse ser encarada como interferência na livre concorrência e o tema fosse judicializado.
A Terra Investimentos ressaltou, em comunicado, que ainda não houve confirmação da possibilidade de aproveitamento da cota uruguaia pelo Brasil pelas autoridades da China. A consultoria apontou também que não foram divulgadas informações sobre volumes, ano de vigência e eventual contrapartida para o acordo. “Se confirmada e válida ainda para 2026, a medida reabriria parte do escoamento à China no 4º trimestre, com viés de sustentação para a arroba e para o BGI (contrato futuro de boi gordo) na B3. A janela, porém, seria curta, pois a China contabiliza a cota pela data de chegada da carne. Até o aval de Pequim, tratamos o tema como manchete não confirmada”, escreveram Geraldo Isoldi e André Fernandes Diogo, da Terra Investimentos.
Os embarques brasileiros atingiram o equivalente à cota de 2026 (1,106 milhão de toneladas) em meados de junho. Acima da cota, a tarifa total sobe para 67% (12% + 55%). A cota do Uruguai em 2026 é de 324 mil toneladas e ainda não foi utilizada integralmente.
Progressão da cota
Dados da Administração-Geral de Alfândegas da China (GACC) compilados pela consultoria Safras & Mercado mostram que o Brasil já ultrapassou a cota de 1,106 milhão de toneladas de carne bovina in natura prevista para 2026. O volume autorizado é taxado em 12% e o excedente paga mais 55%, totalizando 67% de tarifa, o que, segundo o setor, inviabiliza os negócios.
De janeiro a agosto, entraram na China 1,144 milhão de toneladas de carne brasileira, segundo os dados divulgados pela consultoria, o equivalente a 103,5% da cota, com 38,75 mil toneladas além da cota. Apesar disso, ainda não houve divulgação de comunicado oficial da China com a informação do atingimento dos 100% da cota.
Segundo Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, a situação leva a crer que os modelos de contabilização da salvaguarda e das importações são diferentes. Um é feito pelo Mofcom e outro pela GACC. Os dados de importação da China são diferentes das informações de exportações do Brasil, porque os chineses consideram aquilo que entrou nos portos a partir de 1º de janeiro de 2026, incluindo cargas que saíram dos frigoríficos brasileiros ainda em 2025.
“O dado de importação de carne bovina da China aponta para 132 mil toneladas de carne bovina brasileira internalizadas pela China durante o mês de agosto, o que aponta para o esgotamento da cota, inclusive em torno de 39 mil toneladas já excederam esse volume”, informou a consultoria em comunicado na última segunda-feira (21/9).
Uruguai
Pelos dados divulgados pelos chineses, as importações de carne uruguaia chegaram a 101,7 mil toneladas até agosto. Com isso, haveria um volume remanescente de 222,2 mil toneladas a serem ocupadas entre setembro e dezembro. Parte disso poderia ser concedido ao Brasil, segundo o acordo anunciado por Lula e o presidente uruguaio, Yamandú Orsi. Fernando Iglesias, da Safras, avaliou ainda que o Uruguai exportou 8,5 mil toneladas de carne… (conteúdo continua)