CEO da Cargill defende dragagem de rios para garantir escoamento de grãos por hidrovias

O presidente da Cargill Brasil, Paulo Sousa, defendeu a dragagem de rios como medida essencial para manter a navegabilidade das hidrovias, fundamentais para o escoamento de grãos do Centro-Oeste para os portos do Arco Norte. A declaração foi feita durante evento do Bradesco BBI, em São Paulo, nesta quinta-feira (10/9).

“Hidrovia tem que ser dragada. Hidrovia é dragada nos Estados Unidos, no Mississippi, na Europa, no Danúbio, todos os canais de acesso ao porto de Londres, tudo é dragado”, afirmou Sousa. Segundo ele, o modal hidroviário pode ser o mais competitivo, com menor investimento (capex), desde que seja mantido adequadamente e dentro das normas ambientais.

Neste ano, a dragagem do rio Tapajós foi barrada pelo governo federal, gerando preocupação no setor. A MoveInfra estima que até 5 milhões de toneladas de grãos podem deixar de ser transportadas pela hidrovia do Tapajós sem a dragagem de manutenção. O custo adicional com frete pode chegar a R$ 850 milhões para o setor agrícola.

Sousa alertou que, em anos de El Niño ativo, como 2026, a seca e as altas temperaturas reduzem ainda mais a navegabilidade. “Chega a um ponto em que a quantidade de carga colocada na barcaça é tão baixa que não vale a pena gastar o combustível”, explicou. Atualmente, o transporte da Cargill ainda ocorre, mas há temor tanto para o Tapajós quanto para o rio Madeira, que devem voltar a subir apenas com as chuvas de dezembro.

Como alternativa, a Cargill pode usar caminhões para acessar o porto de Santarém (PA), em um trajeto de cerca de 200 km. “Não é tão eficiente quanto a hidrovia, mas dá para não pararmos”, disse Sousa. O aumento de custo não seria tão significativo para a Cargill e a Louis Dreyfus, que operam em Santarém, mas seria mais elevado para empresas que dependem dos terminais de Vila do Conde, também no Pará.

O executivo também mencionou a ocupação de um terminal da companhia em Santarém por comunidades indígenas, em fevereiro, contra a dragagem na Bacia Amazônica. “Apesar de termos sido constituídos como bode expiatório, não temos nada a ver com essa discussão. Apoiamos a dragagem, a hidrovia eficiente, mas com tudo feito dentro das regras ambientais”, afirmou. “Não adianta usar violência ou invasão para evitar a discussão e ganhar no grito.”

Para Sousa, o impasse envolvendo o Pedral do Lourenço, no rio Tocantins, mostra que o Brasil precisa de uma política de Estado para desenvolver hidrovias. O trecho entre Itupiranga e Nova Ipixuna, no Pará, é alvo de disputas jurídicas devido a obras de derrocamento (explosões de rochas) que afetam mais de 20 comunidades ribeirinhas.

O ministro dos Transportes, George Santoro, presente no evento, disse que o país precisa de mais estudos para desenvolver o modal hidroviário. “Infelizmente, começamos as hidrovias de forma não organizada. Precisamos de mais maturidade e contratar mais estudos para provar aos órgãos ambientais que, ao dragar o rio Paraguai, não vou secar o Pantanal”, exemplificou. Segundo Santoro, muitos paradigmas só serão quebrados com mais conhecimento técnico.

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