A China ampliou o rigor no controle de resíduos de agrotóxicos e medicamentos veterinários em produtos agropecuários importados. Diante do aumento de notificações e bloqueios de cargas, o adido agrícola do Brasil em Pequim enviou um alerta ao Ministério da Agricultura pedindo mais atenção no monitoramento antes do embarque.
O objetivo da medida é proteger as exportações brasileiras para o principal cliente do país em segmentos como soja e carne bovina. O documento, assinado pelo adido Leandro Diamantino Feijó, ressalta que uma única detecção de substância proibida ou de resíduo acima do limite máximo (LMR) adotado pela China pode levar à devolução ou destruição do lote e à suspensão da habilitação do exportador.
Alerta para a cadeia produtiva
No documento, Feijó sugere que substâncias proibidas na China sejam excluídas da cadeia produtiva brasileira. A recomendação inclui ainda o cumprimento das dosagens e dos períodos de carência dos medicamentos veterinários para atender aos LMRs chineses. Segundo apurou a reportagem, representantes do setor agropecuário já discutiram o tema com o Ministério da Agricultura.
A orientação vale também para exportadores de produtos de origem vegetal, que devem verificar os limites máximos de resíduos e as proibições ou restrições da lista da China, considerando diferenças entre os insumos autorizados no Brasil e os vedados pelo país asiático.
Aumento das recusas
De acordo com dados da Administração Geral de Aduanas da China (GACC), citados pelo adido, não houve detecções de resíduos em cargas brasileiras entre 2020 e 2023. Em 2024, foram 22 lotes recusados; em 2025, 13; e, no primeiro semestre de 2026, cinco. Quase todos os casos envolveram produtos de origem animal.
Cerca de dois terços das detecções ocorreram por extrapolação do LMR de substâncias autorizadas, principalmente o fluazuron em carne bovina, responsável por 24 lotes. Até agosto de 2026, exportadores brasileiros de carne bovina receberam 320 notificações da China por inconformidades, contra 167 no mesmo período de 2025. Desse total, 82 violações ocorreram no Mato Grosso.
Para Luciano Vacari, CEO da NeoAgro Consultoria, o fluazuron é amplamente utilizado na pecuária brasileira e atende a requisitos de eficiência e segurança. Ele avalia, porém, que a falta de rastreabilidade individual efetiva impede identificar o animal que originou o resíduo. “Sem esse instrumento, torna-se impossível identificar com precisão o animal que deu origem ao resíduo”, afirma.
Problema também na soja
A situação não atinge somente a pecuária. Em novembro de 2025, a China cancelou a importação de uma carga de 69 mil toneladas de soja do Brasil e suspendeu as compras de cinco unidades de quatro empresas após contaminação por dez toneladas de trigo tratado com agrotóxicos. O Brasil não tem autorização para exportar trigo à China, e os produtos utilizados são proibidos no país asiático.
Procurados, o Ministério da Agricultura e o adido agrícola do Brasil na China não responderam. A embaixada chinesa no Brasil não retornou o contato. O Sindan não se pronunciou, e a Abiec preferiu não comentar por não ter sido oficialmente comunicada.