O excesso de chuvas que tem marcado o inverno e pode se intensificar na primavera devido ao El Niño está diluindo o teor de sacarose na cana-de-açúcar, o que deve limitar a produção de açúcar nesta safra. A avaliação foi feita por Felipe Vicchiato, diretor financeiro e de relações com investidores da São Martinho, durante teleconferência com analistas sobre os resultados do primeiro trimestre da safra.
Segundo o executivo, o setor está produzindo menos açúcar justamente no período em que a tendência deveria estar no auge, no meio da moagem. “As estimativas de produção de açúcar do Centro-Sul que tinham há um ou dois meses devem ser revistas para baixo, porque o ATR [Açúcares Totais Recuperáveis] está caindo muito rápido e é difícil retomar a partir de agora por conta do El Niño”, afirmou.
Na segunda quinzena de junho, as usinas do Centro-Sul extraíram 126,52 quilos de ATR por tonelada de cana processada, uma queda de 7% em relação à quinzena anterior, conforme dados do portal Unicadata. Normalmente, o teor de ATR cresce pelo menos até agosto, pico da estação seca. A Unica ainda não divulgou os dados de julho e agosto, mas Vicchiato afirma que os índices de agosto “seriam comparáveis a outubro”, quando a sacarose já costuma ser menor devido à volta das chuvas.
Com a diluição da sacarose, o executivo considera difícil que o setor aumente a produção de açúcar, mesmo com a commodity oferecendo remuneração 25% maior que o etanol atualmente. “Com o ATR que está hoje, não dá para fazer o mix máximo de açúcar, porque o ATR está muito baixo, então tem muito menos eficiência”, explicou. Para ele, as usinas não conseguirão produzir “muito mais açúcar”, e o volume do Centro-Sul “provavelmente vai ficar bem abaixo do estimado inicialmente”. “Com o El Niño, não vai ter esse açúcar”, acrescentou.
A redução do teor de sacarose também dificulta os esforços das empresas para diluir custos fixos, em um momento de margens operacionais negativas. Vicchiato estima que a redução do custo unitário (excluindo o efeito Consecana) desta safra não deve mais cair de 7% a 8% como esperado, mas sim 4%. Por outro lado, a dificuldade em aumentar a produção de açúcar já é percebida pelo mercado e tem contribuído para a elevação dos preços internacionais. “Os preços já se recuperaram um pouco com expectativa sobre o Brasil, por paradas das chuvas, e em parte pela sustentabilidade do negócio”, observou.