O processo de recuperação extrajudicial da Raízen, o maior do país com dívidas sendo negociadas de cerca de R$ 65 bilhões, está movimentando as gestoras especializadas, conhecidas como “special sits” (do inglês, situações especiais). Duas gestoras poderão ser selecionadas para assumirem parte do crédito dos credores, visto que o plano prevê a divisão da companhia, hoje controlada pela Cosan e Shell, em uma unidade de açúcar e etanol e outra com os ativos de distribuição.
Conforme apurou o Valor, muitas gestoras estão em contato com os credores, grupo bastante amplo que inclui cerca de vinte bancos entre nacionais e estrangeiros, detentores de papéis da dívida externa (bondholders) e os da dívida local (debenturistas e crazistas, que são os donos dos Certificados de Recebíveis Agrícolas).
Na unidade de açúcar e etanol uma candidata a assumir seria a gestora Makalu assuma; em distribuição a Geribá, apurou o Valor com fontes que falaram na condição de anonimato. Outras casas ainda mantêm conversas com os credores, o que deve aumentar a competição. Conforme já noticiou o Valor, a IG4, que recentemente assumiu o controle da Braskem, já se antecipou e fez proposta aos credores. A Mapa também está estudando os ativos, segundo interlocutores.
Fontes afirmam que reuniões estão sendo marcadas entre essa e a próxima semana para se discutir o assunto. No caso da IG4, as conversas já estão ocorrendo individualmente e a proposta formal foi feita na última segunda-feira. A proposta é pela Raízen como um todo e a estratégia foi de trazer três alternativas aos credores por conta dos diferentes perfis no grupo, disse uma fonte. Por isso existe a possibilidade do credor vender o seu crédito a ser convertido em ações e a IG4 está capitalizada para fazer esse desembolso, disse um interlocutor próximo das conversas.
Uma fonte disse que dado o grande número de credores é muito difícil uma unidade entre eles para a venda do crédito e por isso colocar na mesa diferentes possibilidades facilita o processo. A IG4 ofereceu, além da compra do crédito a ser convertido, a opção ao credor de deter derivativos (que seriam emitidos pela gestora, modelo adotado na Braskem) ou cotas do fundo que terá as ações da companhia.
A decisão dos credores, disse uma fonte, ainda deve demorar, visto que a conversão de parte da dívida em ações deverá ocorrer até março do próximo ano. Há ainda condições precedentes a serem cumpridas, como um acordo em relação aos passivos fiscais da empresa. A visão, contudo, é de que esse processo irá ocorrer visto que não seria possível fazer uma reestruturação em uma empresa de capital pulverizado.
No processo de “RE”, os credores converterão 45% da dívida em participação acionária, que será distribuída entre essas duas empresas oriundas da atual Raízen. A dívida remanescente seria alongada, também entre as duas unidades.
No geral, os credores bancários, quando há uma iminente conversão da dívida em ações, procuram essas gestoras, que montam uma estrutura para receber essa participação, no geral uma Sociedade de Propósito Específico (SPE). Em seguida, essa estrutura faz uma emissão de debêntures, que passa a ser detida pelo credor. No geral, os contratos firmados possuem uma previsão de ganho futuro, no geral um “earn-out” em evento de liquidez, ou seja, a venda da empresa.
No momento os credores estão selecionando o nome do que foi batizado de Creditor Restructuring Advisory Officer (CRAO), que nada mais é do que o consultor no processo do lado dos detentores da dívida. Estão no páreo Camille Faria (que participou do processo de reestruturação da Americanas), Mateus Tesler (ex-Jive), Helena Ramos e Mário Peixoto (sócio da Makalu).