Complexo de Belo Monte usará IA para identificar e contar peixes em tempo real

O Complexo Hidrelétrico Belo Monte, no Pará, dará um passo significativo na gestão ambiental ao implementar inteligência artificial no monitoramento de peixes a partir de abril de 2027. Cientistas e técnicos do Instituto Atlântico treinam um algoritmo capaz de contar e identificar, em tempo real, cada espécie que utiliza o Sistema de Transposição de Peixes (STP), popularmente conhecido como “escada de peixes”.

Atualmente, uma câmera grava 24 horas por dia a janela de observação submersa no rio Xingu, por onde passam milhões de peixes em migração. A identificação das espécies é feita manualmente por uma equipe de seis pessoas, que analisam os vídeos quadro a quadro. Esse processo, em operação desde 2016, já registrou mais de 4,3 milhões de peixes de 168 espécies diferentes na Usina Hidrelétrica Pimental, que integra o complexo.

Com a automação via inteligência artificial, o foco inicial será em espécies migratórias como curimatás, jaraquis e pirararas, além de peixes amazônicos de importância para a pesca local, como pacus e tucunarés. A tecnologia também permitirá avaliar a turbidez da água e a vazão, dia e noite, segundo Polycarpo Souza Neto, cientista de dados do Instituto Atlântico.

A classificação taxonômica (espécie, família e ordem) e o rastreamento dos peixes gerarão dados confiáveis para os relatórios ambientais exigidos por órgãos como o Ibama. A expectativa é de que a precisão média na identificação ultrapasse 90% com o amadurecimento do projeto.

O monitoramento por visão computacional faz parte de uma plataforma tecnológica chamada Idarsa (Inteligência de Dados para Automação de Relatórios Socioambientais), desenvolvida pelo Instituto Atlântico para integrar todos os dados dos 49 programas socioambientais de Belo Monte. O projeto conta com investimento total de R$ 7 milhões, via Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Norte Energia – regulado pela Aneel – e apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).

O algoritmo utilizado, o Yolo (You Only Look Once), já é empregado para monitoramento de salmão nos Estados Unidos e Noruega, mas com um número muito menor de espécies. Enquanto lá a tecnologia lida com 15 espécies, em Belo Monte a meta é chegar a 60, com possibilidade de rápida expansão para 78.

Tommaso Giarrizzo, doutor em biologia marinha pela Universidade de Bremen e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), destaca que o sistema ajudará a responder questões ecológicas fundamentais, como os fatores que determinam a passagem das espécies e a promoção da conectividade fluvial. Estudantes de mestrado e doutorado da UFC e de outras universidades, como a UFPA, já estão envolvidos no desenvolvimento de teses sobre o tema.

A tecnologia, inédita no Brasil, poderá ser aplicada em outras barragens, com a customização do software para a realidade de cada usina e treinamento do algoritmo para novas espécies regionais. Apesar dos avanços, Belo Monte permanece alvo de críticas de ambientalistas e povos originários devido aos impactos socioambientais, especialmente sobre comunidades indígenas e ribeirinhas e a fauna aquática do Xingu.

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