Dados atualizados do Monitor do Crédito Rural, plataforma do MapBiomas, indicam que a concessão de crédito rural público para propriedades com alertas de desmatamento ou degradação de vegetação nativa somou 831 mil operações entre 2019 e 2025, totalizando desembolsos de R$ 92,4 bilhões. No mesmo período, o volume total de crédito rural alcançou R$ 613,18 bilhões, distribuídos em 9,48 milhões de operações.
O Monitor cruza informações do Banco Central com dados geoespaciais do MapBiomas, abrangendo alertas de desmatamento, embargos ambientais, florestas públicas tipo B, terras indígenas, unidades de conservação e quilombos. O levantamento aponta a perda de vegetação nativa, mas não confirma se o desmatamento é ilegal ou está em conformidade com o Código Florestal Brasileiro.
A versão mais recente do monitor ampliou sua cobertura ao incorporar o Cadastro Ambiental Rural (CAR) declarado nas operações registradas no Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor), do Banco Central. Segundo Paulo Teixeira, pesquisador do MapBiomas, a quantidade de operações analisadas mais que dobrou com essa mudança, proporcionando maior transparência sobre o destino do crédito e as sobreposições das propriedades.
O Piauí lidera em número de operações com sobreposição a camadas socioambientais, com 336 mil entre 2019 e 2025, seguido por Bahia (218 mil), Rio Grande do Sul (191 mil) e Minas Gerais (149 mil). Em volume financeiro, Tocantins encabeça a lista com R$ 13,9 bilhões, à frente de Mato Grosso (R$ 13,3 bilhões) e Rondônia (R$ 13 bilhões).
Mais de 68% das operações têm finalidade de investimento. A pecuária está ligada a 58% das contratações, sendo que mais de 23% se enquadram na modalidade aquisição de animais, e 27% têm bovinos como produto financiado. Teixeira destaca que a pecuária predomina nas áreas avaliadas, mas seriam necessárias análises mais aprofundadas para confirmar se é a cadeia que mais provoca desmatamento.
Mais de 400 instituições financeiras concedem crédito rural no país, mas 60% dos recursos se concentram em cinco bancos: Banco do Brasil (R$ 306 bilhões), Banco do Nordeste (R$ 97 bilhões), Banco da Amazônia (R$ 50 bilhões), Sicredi (R$ 37 bilhões) e Banrisul (R$ 17 bilhões).
Procurado, o Banco do Brasil afirmou que sua política de crédito veda financiamentos em áreas protegidas ou com desmatamento ilegal. A instituição utiliza 33 bases públicas para verificar restrições legais, e desde 2019 todas as operações passam pela ferramenta Diagnóstico Geo Socioambiental, que impede a contratação em caso de sobreposição com bases impeditivas. O banco também monitora as operações após a contratação e suspende desembolsos em caso de infração socioambiental. Em 2025, a instituição evitou desembolsar R$ 31,6 bilhões em áreas não alinhadas com normas socioambientais.