Crise no setor citrícola se agrava com queda na demanda global por suco de laranja, aponta CitrusBR

A citricultura mundial enfrenta uma crise de demanda sem precedentes, e o Brasil, maior produtor e exportador de suco de laranja, sente os efeitos de forma contundente. De acordo com Ibiapaba Netto, diretor-executivo da CitrusBR, o consumo da bebida vem caindo à medida que os preços no varejo sobem. “O que está acontecendo na crise da citricultura é um daqueles momentos raros em que o clima, a geopolítica e o bolso do consumidor colidem”, resume.

O ciclo negativo teve início com a restrição de oferta de laranja, após problemas climáticos entre 2022 e 2024. Com o preço do produto final elevado, a demanda despencou. Embora as exportações tenham se mantido estáveis, a receita na safra 2025/26 é menor. O Brasil vendeu 746,9 mil toneladas no período, volume similar ao do ano anterior, mas o faturamento caiu 30,5%, passando de US$ 3,42 bilhões para US$ 2,37 bilhões, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior compilados pela CitrusBR.

Netto explica que a queda na demanda global é resultado dos altos preços das safras anteriores, que levaram consumidores a buscar alternativas mais baratas, além de problemas na qualidade do produto causados pelo clima e pelo greening na última temporada. Um levantamento da CitrusBR mostra que os estoques globais de suco de laranja brasileiro, em FCOJ Equivalente (66° Brix), totalizaram 616.460 toneladas em 31 de dezembro de 2025, 75,4% acima das 351.483 toneladas registradas um ano antes. “Encalhou produto”, resume o executivo.

Entre 2022 e 2024, o suco de laranja atingiu os maiores preços da história na bolsa de Nova York, negociado a US$ 5,49 por libra-peso. Hoje, o valor está em US$ 1,40. A disparada foi causada pelo clima adverso — com altas temperaturas e secas históricas — e, principalmente, pelo avanço do greening, principal doença da citricultura. Netto ressalta uma “regra de ferro” do setor, medida pela Nielsen: para cada ponto percentual de aumento no preço do suco na prateleira, as vendas caem 1%, no mínimo. Após a explosão das cotações, o preço no supermercado subiu mais de 20%. “A demanda despencou e o consumidor desapareceu”, afirma.

O executivo destaca que, apesar de ser o maior produtor, o Brasil não controla a demanda. Como o suco de laranja não é um produto essencial, o consumidor só compra se a qualidade e o preço fizerem sentido. “Nessa hora, entra o supermercado, que vive de vender espaço na prateleira. Se o suco encalhar, ele troca por qualquer coisa: refrigerante, chá gelado, bebida de amêndoa”, explica.

Outro fator de pressão é o aumento de custos, impulsionado por conflitos geopolíticos — a guerra no leste europeu (Rússia e Ucrânia) e no Oriente Médio (Estados Unidos e Irã). Esses eventos desorganizaram o mercado global de fertilizantes e petróleo, elevando custos de logística e transporte. Netto também aponta a taxa básica de juros brasileira, a Selic, em 14% ao ano, como fonte de pressão, apesar dos recentes cortes do Copom.

A crise se agrava com o aumento de recuperações judiciais no setor. O agro registrou 1.263 CNPJs de agricultores em recuperação judicial ao fim do primeiro semestre deste ano, segundo o Monitor RGF-Bizdoc, um aumento de 21,4% em relação ao final de 2025 e 66% superior ao estoque do primeiro semestre do ano anterior.

Netto considera esta a pior crise de demanda na história do setor. A diferença, segundo ele, é que o produtor está capitalizado após três safras com preços bons, sendo uma delas com os maiores valores “jamais praticados”.

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