Desaparecimento das abelhas: entenda o impacto devastador para o planeta e a produção de alimentos

Se as abelhas desaparecessem do planeta, o cenário seria de caos para o meio ambiente e para a vida humana. É o que afirma o pesquisador Marcos Jacob, da Embrapa Meio-Norte, que atua na transferência de tecnologia. A extinção desses insetos comprometeria a produção de alimentos e o equilíbrio ambiental, um risco real que vai além de uma ficção científica.

As abelhas desempenham um papel essencial na polinização, transportando pólen entre as flores e garantindo a reprodução de diversas espécies vegetais. Segundo Jacob, a redução populacional desses insetos já causa danos silenciosos. “Quando pensamos na extinção delas, muitas vezes pensamos apenas no desaparecimento completo. Mas a própria redução populacional já está causando um dano silencioso, porque afeta a perpetuação de muitas espécies nativas que dependem dessas abelhas”, explica. “Com isso, a redução do número de colônias também diminui a capacidade que a natureza tem de se regenerar”, acrescenta.

Papel insubstituível na polinização

Manter a diversidade das abelhas é fundamental, pois cada espécie estabelece relações específicas com determinadas plantas. Jacob destaca que a presença de uma abelha em uma flor não significa necessariamente que ela esteja polinizando. “É importante dizer que o fato de uma abelha frequentar uma flor para retirar néctar ou pólen não significa necessariamente que ela esteja polinizando. Significa que está extraindo apenas seu alimento”, esclarece.

A anatomia de cada espécie também influencia essa relação. Por exemplo, a abelha Apis não consegue alcançar o pólen em estruturas muito finas de algumas flores. Essa interação é resultado de milhões de anos de evolução, e nenhuma outra espécie — como formigas, mariposas, morcegos ou borboletas — consegue substituir integralmente o papel das abelhas.

Ameaças à sobrevivência das abelhas

As abelhas enfrentam perda de habitat, exposição a agrotóxicos e mudanças climáticas. O aquecimento global altera a época e a intensidade da floração, reduzindo a oferta de néctar e pólen. O excesso de chuvas também pode “lavar” o pólen, diluir o açúcar do néctar e dificultar o voo dos insetos. “Você pode matar um ser vivo diretamente, mas pode matar um ser vivo tirando o alimento dele”, afirma Jacob.

O desmatamento seletivo, que remove árvores específicas para madeira ou lenha, também afeta as abelhas. Árvores de troncos grossos florescem no período seco e possuem ocos que servem de abrigo. Imagens de satélite nem sempre detectam essa perda, mas a prática reduz tanto a oferta de alimento quanto os locais para colônias.

Alternativas para a conservação

“Nem tudo é notícia ruim. Trabalhamos com esse cenário catastrófico, mas, ao mesmo tempo, enquanto Embrapa, temos que trabalhar com soluções tecnológicas, buscando pelo menos minimizar esses efeitos ou fazer com que eles aconteçam mais lentamente, até que consigamos uma solução plena”, diz Jacob.

Uma estratégia é tornar a criação de abelhas economicamente viável. Na apicultura, baseada na Apis, produtores obtêm mel, pólen e própolis. Porém, essa espécie é exótica e não substitui todas as relações ecológicas das abelhas nativas. Já a meliponicultura, voltada a abelhas sem ferrão, atua diretamente na conservação de espécies nativas. Em Bela Vista do Piauí, por exemplo, meliponicultores mantêm cerca de 1.500 colônias e 60 sócios, produzindo mel e oferecendo abrigo para abelhas que perderam seus habitats.

Conciliar atividade econômica com conservação, por meio de zoneamentos e faixas de controle, pode reduzir conflitos e proteger esses polinizadores indispensáveis.

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