El Niño deve intensificar volatilidade dos preços do café, alerta StoneX

A colheita de café no Brasil sofreu atrasos devido a chuvas acima da média em junho — Foto: Tony Oliveira / CNA

O mercado global de café tende a apresentar um ambiente de oferta mais confortável durante o terceiro trimestre do ano, impulsionado pela entrada da safra recorde brasileira. No entanto, o atraso na colheita e a evolução do fenômeno El Niño com seus potenciais impactos em regiões produtoras importantes devem movimentar os preços internacionais nos próximos meses, na avaliação da consultoria StoneX.

Os repiques nos preços em junho mostram que o mercado segue sensível a fatores que possam comprometer a disponibilidade de café. A colheita no Brasil sofreu atrasos devido a chuvas acima da média em junho. A comercialização pelos produtores também foi mais lenta que a média histórica, enquanto os estoques certificados da bolsa ICE recuavam. Tudo isso deu sustentação temporária às cotações.

Safra recorde e oferta global

Segundo estimativas da StoneX, a safra brasileira 2026/27 deverá alcançar 75,3 milhões de sacas, crescimento de 20,8% em relação ao ciclo anterior. O volume inclui 50,2 milhões de sacas de arábica e 25,1 milhões de sacas de robusta. A consultoria projeta um excedente na oferta global próximo de 10 milhões de sacas.

“A partir de julho e, principalmente, de agosto, volumes mais expressivos da nova safra brasileira devem chegar ao mercado internacional. Isso tende a reduzir o aperto observado nos últimos anos e aliviar a pressão sobre os diferenciais de exportação”, afirmou em relatório Leonardo Rossetti, especialista de inteligência de mercado da StoneX.

No Vietnã, principal produtor mundial de robusta, a oferta também deve crescer no ciclo 2026/27. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estima a produção vietnamita em 32,5 milhões de sacas, o que contribui para reforçar as perspectivas de maior oferta global no segundo semestre.

O consumo global, por sua vez, não dá sinais de deterioração, o que deve ajudar a sustentar os preços da commodity. A StoneX também vê tendência de normalização gradual dos estoques acumulados por produtores, cooperativas e exportadores com a entrada das safras maiores. Esse movimento, segundo Rossetti, pode limitar aumentos mais expressivos nos preços.

Riscos climáticos e volatilidade

Embora o cenário no curto prazo seja de uma oferta mais confortável, a StoneX destaca que as atenções devem se voltar para os riscos climáticos ao longo do trimestre. Os modelos climáticos indicam probabilidade superior a 80% de manutenção do El Niño durante o segundo semestre, com risco crescente de intensificação para níveis fortes ou muito fortes até o final do ano.

No Brasil, as condições atuais das lavouras são consideradas positivas, mas o comportamento do El Niño entre setembro e outubro será determinante para o potencial produtivo da safra 2027/28. Brasil, Vietnã e Indonésia aparecem entre as regiões mais vulneráveis a condições de calor e seca associadas ao fenômeno climático, o que pode mudar as perspectivas de produção para 2027.

Segundo a StoneX, a duração do El Niño será tão importante quanto sua intensidade. Caso haja enfraquecimento já no início de 2027, os riscos para a produção global poderão ser limitados. Mas, se o fenômeno persistir em níveis elevados, o mercado poderá começar a incorporar um prêmio climático às cotações ainda no final de 2026.

“Hoje o mercado trabalha com a expectativa de oferta abundante no curto prazo, mas o comportamento do El Niño pode redefinir as perspectivas para a safra seguinte. Por isso, apesar do cenário potencialmente baixista para os próximos meses, a volatilidade continua sendo uma característica importante para o café”, concluiu Rossetti.

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