El Niño e custos elevados reduzem área plantada de trigo no Brasil em 2026

A safra brasileira de trigo em 2026 deve registrar uma das maiores retrações dos últimos anos. A combinação entre preços pouco atrativos, aumento dos custos de produção, dificuldade de acesso ao crédito e a previsão de um ano de El Niño desestimulou o plantio em praticamente todos os Estados produtores. Além da redução de área, especialistas afirmam que o clima ainda pode comprometer a produtividade e a qualidade dos grãos, elevando a necessidade de importações.

Segundo o último levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a área plantada com a cultura no Brasil em 2026, semeada em grande parte entre abril e julho, deve encolher 13,4% em relação ao ano passado, atingindo 2,117 milhões de hectares. A estimativa da consultoria Safras & Mercado é de uma queda maior, de 17%, saindo de 2,3 milhões para 1,9 milhão de hectares. Com isso, a produção nacional pode cair 26,8%, de 8,12 milhões para 5,9 milhões de toneladas.

Queda generalizada nos estados produtores

“O comportamento é praticamente unânime em todos os Estados produtores: redução de área, menor produção e expectativa de perdas de produtividade”, afirma Élcio Bento, analista da Safras & Mercado. “Os preços não têm atraído o produtor, e outras culturas estão oferecendo uma relação de risco e retorno mais favorável. Além disso, o produtor do Sul vem de sucessivas quebras de safra, tanto no verão quanto no inverno, e está mais receoso em investir no trigo”, diz Jonathan Pinheiro, analista de inteligência de mercado da StoneX.

No Rio Grande do Sul, maior produtor nacional de trigo, onde agricultores enfrentam uma grave crise de endividamento após várias safras de verão com problemas climáticos, a queda deve ser ainda mais drástica. A Emater-RS estima o plantio de 814 mil hectares com o cereal em 2026, um tombo de 30% em comparação com os 1,16 milhão de hectares da safra passada, e a menor área desde 2019.

Clima adverso agrava cenário

Os prognósticos para o clima são um dos principais fatores para a redução. Com o fenômeno El Niño, o inverno gaúcho deverá ter temperaturas e precipitações acima da média, situação que deverá se acentuar na primavera, segundo Flávio Varone, agrometeorologista da Secretaria Estadual da Agricultura (Seapi). “Isso se refletirá em desafios no fim do ciclo da safra de inverno, já que o excesso de chuvas prejudica a qualidade do grão e atrapalha a colheita.”

Essa previsão faz com que os produtores fiquem mais cautelosos. João Carlos Bilibio, de Ciríaco (RS), plantou 140 hectares de trigo no ano passado, mas em 2026 vai dedicar apenas 25 hectares. “Como este ano vai ser de chuvarada, dificilmente o trigo vai ter qualidade. Isso desanima, porque o custo da lavoura foi muito alto, adubação está cara, e o preço do grão está muito baixo”, afirma. “Além disso, tem o problema do seguro. O particular não vale a pena, e a gente não se encaixa no Proagro. Então não temos incentivo para plantar trigo”, lamenta.

Rentabilidade em baixa

A expectativa de menor rentabilidade com o trigo, por causa da queda dos preços e da alta dos custos de produção, especialmente de fertilizantes, é outro fator de desestímulo. “Fiz conta de tudo que é lado, e a matemática é exata. O trigo acabou se tornando, na ponta do lápis, uma cultura com uma grande probabilidade de não deixar rentabilidade nenhuma. Pelo contrário, há grande chance de deixar prejuízo na atividade”, afirma Tales Pezzini, produtor em Santa Bárbara do Sul (RS). Em 2025, ele plantou 490 hectares de trigo. Nesta safra, não irá semear um único talhão com o cereal. “Quando olho dados de produtividade dos anos anteriores, dificilmente vou conseguir produzir mais do que 50 sacas por hectare de trigo. Se partir do princípio que vou conseguir a mesma coisa, e o meu custo de produção está em 60 sacas por hectare, não vale investir”, diz.

Pessimismo no Paraná

No Paraná, a previsão de um El Niño forte também preocupa os produtores, que devem reduzir o plantio. A estimativa no Estado é de plantio de 722 mil hectares, 12% menos que os 820 mil hectares da temporada anterior, conforme a Secretaria Estadual da Agricultura e do Abastecimento (Seab). O agrônomo Gernold Schartner, gerente de duas fazendas em Palmeira e Tibagi, na região dos Campos Gerais, observa que a chuva pode ser muito prejudicial à cultura. “Chuvas intensas, durante a colheita, são mais problemáticas do que a geada no inverno. O trigo não vai bem com umidade em excesso, o que pode resultar em perda de qualidade e preço”, avalia.

As duas propriedades administradas por Schartner somam, juntas, 900 hectares semeados com culturas de inverno para colheita. Até a safra 2024, o trigo era o principal produto. Desde o ano passado, a cevada vem ganhando espaço. “Neste ano, devido ao aumento dos custos dos insumos e das previsões do El Niño, ficamos com 80% da área de cevada e 20% de trigo”. As projeções para o clima também devem afetar a produtividade. Segundo o agrônomo, a expectativa é ficar dentro da média da região, estimada em 4.200 quilos por hectare. Na safra passada, o clima contribuiu e a produtividade foi excelente, chegando a 5.800 quilos por hectare. “Mas o preço não ajudou e o resultado foi suficiente apenas para cobrir os custos de produção, com pouco lucro”, conclui Schartner.

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