O governo federal começou a se movimentar diante da confirmação de um El Niño de alta intensidade para os próximos meses. Os ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário já discutem os possíveis efeitos do fenômeno climático sobre a produção agropecuária, a renda dos produtores e os preços dos alimentos.
Grupo de trabalho e áreas vulneráveis
O Ministério da Agricultura instituiu um grupo de trabalho com a participação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O objetivo é avaliar os impactos do El Niño e propor estratégias de mitigação, adaptação e proteção ao produtor rural. O colegiado deve identificar regiões e cadeias produtivas mais vulneráveis, como soja, milho, trigo, feijão, cana, café e mandioca.
Ações emergenciais no Norte e previsões climáticas
O Ministério do Desenvolvimento Agrário busca recursos do Fundo Amazônia para capacitar e formar brigadistas entre assentados da reforma agrária na região Norte, além de já atender comunidades rurais afetadas por chuvas intensas no Amazonas. O Inmet prevê chuvas acima da média no Sul e abaixo da média no centro-norte do país no trimestre até setembro, com altas temperaturas e risco de ondas de calor e incêndios florestais. Modelos indicam mais de 90% de chance de o El Niño persistir até o início de 2027, com probabilidade de ser “muito forte”.
Seguro rural e orçamento
A falta de recursos para o seguro rural é a principal carência apontada por fontes do Ministério da Agricultura. O orçamento de 2026 para o programa foi bloqueado para menos da metade (R$ 473,8 milhões), o que pode desestimular produtores e reduzir a produção, elevando os preços dos alimentos. No Ministério do Desenvolvimento Agrário, a atenção se volta ao Proagro, que conta com orçamento de R$ 6,6 bilhões. Na safra 2025/26, foram pagos R$ 3 bilhões em indenizações a 71 mil comunicados de perda. O diretor de Financiamento, Proteção e Apoio à Inclusão Produtiva Familiar, José Henrique da Silva, afirmou que ainda há espaço confortável, mas o monitoramento é constante.
Medidas de mercado e assistência a comunidades
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) solicitou R$ 1,5 bilhão em suplementação orçamentária para formar estoques reguladores de arroz, milho e trigo, visando mitigar choques de mercado e pressões inflacionárias. A ministra do Desenvolvimento Agrário, Fernanda Machiaveli, disse que a proposta esbarrou em questões técnicas, mas busca novos leilões de contratos de opção para arroz e milho. Produtores do Amazonas já relataram problemas em 16 comunidades rurais, solicitando cestas básicas, água potável e kits de mudas nativas para recuperação produtiva.