O fenômeno climático El Niño, que já está ativo e pode se fortalecer nos próximos meses, traz riscos para o escoamento de cargas pelas hidrovias estratégicas do Arco Norte. Com chuvas abaixo da média nas regiões Norte e Nordeste, os níveis dos rios tendem a cair, afetando o transporte de grãos de Mato Grosso até os portos do Pará e também a chegada de fertilizantes importados ao Centro-Oeste.
De acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há 63% de chances de um El Niño “muito forte”, com aquecimento das águas do Pacífico de até 2 °C acima do normal. “Isso deve impactar negativamente as condições de navegabilidade no Arco Norte”, alerta o Santander em relatório assinado pelos analistas Lucas Barbosa, Gabriel Tinen e Victor Tani.
Estudo do banco, divulgado em 18 de junho, mostra que a altura do Rio Tapajós tende a ficar cerca de 0,9 metro abaixo dos níveis normais em anos de El Niño. A hidrovia do Tapajós é a principal rota fluvial que leva soja e milho das regiões produtoras de Mato Grosso — via BR-163 até Miritituba (PA) — para os terminais de Santarém e Barcarena, de onde a produção segue para o mercado internacional.
No ano passado, 36,2% das exportações brasileiras de soja e milho passaram pelos portos do Arco Norte. Só no primeiro bimestre de 2026, a hidrovia do Tapajós movimentou 2,38 milhões de toneladas de cargas, sendo 86% de soja e milho, 6,3% de fertilizantes e 7,4% de granéis líquidos, segundo dados do Ministério de Portos e Aeroportos.
Modais em transformação
Apesar do risco climático, o avanço do modal hidroviário tem sido significativo. Estudo da nstech, empresa de software para supply chain, indica que o transporte de soja por hidrovias saltou de 9% para 13,5% entre 2023 e 2025. As ferrovias também ganharam participação, subindo de 22% para 25% no mesmo período. Ainda assim, o modal rodoviário predomina, com 66% do escoamento de soja em 2025, ante 69% em 2023.
“A predominância rodoviária ainda expõe ineficiências, com o país operando um excedente estimado de 70 mil caminhões em rotas de longa distância. A agenda ESG e a digitalização deixaram de ser diferenciais e se tornaram pré-requisitos comerciais”, afirma Thiago Cardoso, diretor de agronegócio na nstech. Ele ressalta que os principais avanços na intermodalidade vieram da iniciativa privada, mas a burocracia pública limita a expansão.
“Vamos continuar escoando pelo menos 60% da soja por caminhão pelos próximos anos, com os entraves regulatórios que temos hoje”, estimou Cardoso.
Foto: Porto de Mirituba (PA) – altura do Rio Tapajós tende a ficar cerca de 0,9 metro abaixo dos níveis normais em anos de El Niño (Crédito: Lucas Nunes/Famato)