O fenômeno El Niño de 2026 pode ser um dos mais intensos em mais de uma década, mas para o setor agrícola da América Latina, especialmente Brasil e Argentina, o impacto pode se traduzir em ganhos de produtividade e superoferta. No entanto, isso não significa necessariamente maior lucro para os produtores, segundo estudo da Allianz Trade.
Dados de episódios anteriores mostram que as safras brasileiras registraram desvios positivos em relação à tendência de cinco anos: a produção de soja chegou a ficar até 4% acima da média histórica (em 2015), enquanto o café arábica atingiu até 5% acima da tendência. O clima mais úmido beneficia lavouras de grãos e oleaginosas no Sul do continente, mas o aumento expressivo da oferta tende a pressionar os preços para baixo.
Além disso, a superoferta preenche rapidamente a capacidade de estocagem, encarecendo os custos de armazenamento para produtores e tradings. No Brasil, os efeitos do El Niño são assimétricos: enquanto o Sul é favorecido pela umidade, o Norte e a bacia amazônica enfrentam riscos de seca, posicionando o país, ao lado de Colômbia e Peru, entre os com vulnerabilidades inflacionárias específicas — podendo impactar preços de alimentos, logística e geração de energia elétrica.
Globalmente, a melhora na oferta de soja e milho na América Latina deve atuar como contrapeso às pressões inflacionárias de alimentos, diferentemente do Leste Asiático e da África Ocidental, que enfrentam riscos de seca em culturas como cacau, óleo de palma e arroz. Para o setor corporativo, exportadores brasileiros podem registrar condições operacionais e de crédito mais fortes devido ao maior volume, embora o estresse financeiro possa aumentar para processadores de alimentos e intermediários expostos à volatilidade e à queda dos preços das commodities.