Um estudo elaborado por pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT/PPED) para a Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (Sest) alerta que a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) atravessa um “ponto de inflexão institucional”. O documento, intitulado “Embrapa entre o legado, o futuro e as transformações necessárias”, foi coordenado pelos doutores em Ciência Econômica Ana Célia Castro e Antônio Márcio Buainain, com a participação de mais sete pesquisadores.
Segundo os autores, a estatal precisa refletir sobre as condições necessárias para manter sua “inquestionável” relevância estratégica no longo prazo, especialmente diante de “profundas transformações na agricultura, na ciência, na inovação e nas formas de financiamento público”. O estudo destaca que a Embrapa foi decisiva para a construção da agricultura tropical, a expansão da produtividade e a consolidação do Brasil como potência agroalimentar, mas que esse legado histórico não é suficiente para garantir sua funcionalidade nas condições atuais.
Desafios estruturais e financeiros
Os pesquisadores apontam que a estrutura organizacional, a governança e o modelo de financiamento da Embrapa vêm sofrendo tensões devido a mudanças no ambiente macroeconômico, restrições fiscais persistentes, transformações nos sistemas produtivos, redefinição das fronteiras tecnológicas e pressões por resultados de curto prazo. “O resultado é um quadro em que ativos institucionais relevantes convivem com perda relativa de capacidade de implementação”, afirmam. Eles observam um processo incremental de perda de capacidade de coordenação, que se manifesta na política de pessoal, na rigidez administrativa e na implementação do planejamento estratégico.
Embora a Embrapa mantenha sua relevância estratégica para o desenvolvimento agrícola, segurança alimentar, sustentabilidade e inovação tecnológica, o estudo alerta para dificuldades crescentes em transformar ativos científicos, humanos e territoriais em resultados consistentes.
Recomendações para o futuro
O documento não oferece um plano operacional detalhado, mas traça recomendações em cinco eixos principais:
- Reconstrução das capacidades de coordenação, liderança e gestão de pessoas: fortalecer a coordenação estratégica, investir na formação de lideranças com dupla competência (científica e organizacional), atrair e reter talentos em áreas como ciência de dados e digitalização, e reformar mecanismos de avaliação e incentivos.
- Governança da rede descentralizada de unidades: tratar a rede como um sistema integrado, revisando funções estratégicas, adotando critérios explícitos de hierarquização, alocação de recursos e avaliação de desempenho por unidade.
- Modernização da governança e dos processos decisórios: promover uma modernização profunda, não como controle burocrático, mas voltada a decidir, priorizar, acompanhar e corrigir rumos.
- Financiamento público estável e previsível: os pesquisadores rejeitam qualquer lógica que inverta a centralidade do financiamento público. “É esse financiamento que viabiliza pesquisa básica, adaptação às mudanças climáticas, inclusão produtiva e atuação em áreas negligenciadas pelo mercado”, enfatizam. Recursos privados devem ser adicionais e complementares, jamais substitutivos.
- Projeto Institucional Exequível: a Embrapa precisa de uma visão de futuro que vá além de uma narrativa de êxitos passados, atualizando sua missão e seus instrumentos para enfrentar os desafios atuais.
O estudo conclui que o risco central não é a ausência de discursos estratégicos, mas a possibilidade de a Embrapa permanecer ancorada em sucessos passados sem conseguir se adaptar às novas realidades.