Uma pesquisa conduzida pelo Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), revelou que a técnica de enxertia pode ser uma aliada importante no combate à gomose, doença fúngica que afeta a citricultura brasileira. Os resultados foram publicados no Journal of Agricultural and Food Chemistry, periódico científico dos Estados Unidos.
A gomose, causada pelo patógeno Phytophthora citrophthora, ataca raízes, tronco e frutos, reduzindo a produtividade e o valor comercial das frutas. O estudo, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), analisou diferentes combinações de enxerto e porta-enxerto, submetendo-as à inoculação e reinoculação com o fungo para observar as reações das plantas.
“A ideia central não foi desenvolver uma nova técnica de enxertia, mas identificar quais sistemas de enxerto/porta-enxerto apresentam respostas de defesa mais eficientes e compreender os mecanismos bioquímicos envolvidos”, explica Felipe Hilário, pesquisador de pós-doutorado no DQ-UFSCar.
Os resultados mostraram que combinações como laranja-pera sobre limão-cravo ou limão-tahiti sobre tangerina sunki-tropical apresentaram lesões menores no caule após uma segunda infecção, indicando uma resposta imune mais eficiente. Esse fenômeno, conhecido como “memória de defesa” ou priming, prepara a planta para reagir de forma mais rápida e eficaz em ataques futuros.
“Foram identificados níveis aumentados de cumarinas, flavonoides e alcaloides [substâncias naturais associadas à resposta da planta contra patógenos]”, afirma Maria Fátima das Graças, professora do Centro de Ciências Exatas e de Tecnologia (CCET-UFSCar) e líder do estudo. “Esse comportamento está relacionado a um fenômeno conhecido como memória de defesa. A primeira exposição ao patógeno causa danos, mas também prepara a planta para responder melhor em um novo ataque”, complementa Hilário.
A pesquisa abre caminho para o desenvolvimento de porta-enxertos mais tolerantes, contribuindo para a sustentabilidade da citricultura brasileira, que é uma das maiores produtoras mundiais de laranja.