Manter a sanidade do solo e reduzir a incidência de doenças tornou-se um desafio cada vez maior na produção de batatas. Para enfrentar esse problema, o Instituto Federal Goiano (IF Goiano), em parceria com a Syngenta e a PepsiCo, iniciou em 2021 uma pesquisa que avalia como a qualidade biológica do solo influencia a sanidade dos cultivos de batata. O objetivo é entender como práticas da agricultura regenerativa podem contribuir para a sustentabilidade e a eficiência produtiva da cultura.
A iniciativa utiliza a metodologia BioAS (Bioanálise de Solo), desenvolvida pela Embrapa e lançada em 2020. Essa ferramenta permite analisar o componente biológico do solo e serviu de base para o monitoramento da qualidade biológica em áreas produtoras de Goiás, Paraná e São Paulo.
Natália de Oliveira, gerente de Agronegócio da PepsiCo Brasil, explica que a pesquisa surgiu dentro das Demo Farms, fazendas demonstrativas da companhia voltadas ao desenvolvimento de projetos de inovação e agricultura regenerativa a partir das demandas dos produtores. “Quando esse projeto começou, tínhamos um agricultor altamente tecnificado, com excelentes práticas de sustentabilidade. Não faria sentido falar daquela Demo Farm sem abordar um tema central para ele: a agricultura regenerativa”.
Como a Syngenta já era parceira do projeto Demo Farms, as duas empresas decidiram concentrar os estudos daquele ano na agricultura regenerativa e na recuperação da saúde do solo. “Naquele período, tanto a PepsiCo quanto a Syngenta haviam lançado suas estratégias de sustentabilidade. Nós entendemos que esse era um tema com enorme potencial estratégico e prático para ser desenvolvido em conjunto”, afirmou Natalia Vasconcelos, gerente de Sustentabilidade da Syngenta.
Segundo a executiva, a demanda surgiu a partir de um desafio enfrentado pelos bataticultores. Em condições ideais, a batata retorna à mesma área apenas depois de alguns anos. Com a redução das áreas agricultáveis, porém, muitos produtores passaram a encurtar esse intervalo para manter a atividade econômica. “Eu me lembro de que a discussão sobre agricultura regenerativa surgiu, na linguagem do produtor, como uma questão relacionada ao controle de doenças de solo”.
Para responder a esse desafio, a equipe adotou a metodologia BioAS para avaliar a qualidade biológica do solo. Segundo Nadson Pontes, doutor em Fitopatologia, professor do IF Goiano e responsável pela condução do estudo, a BioAS reúne um protocolo de análise que simplificou métodos já existentes para avaliar a saúde biológica do solo. “A metodologia tem como base a atividade das enzimas beta-glucosidase e arilsulfatase, que foram escolhidas porque são bons indicadores da atividade microbiana do solo e praticamente não sofrem influência de fatores como fertilidade, adubação ou pH”. Outro diferencial da tecnologia, segundo o pesquisador, é o baixo custo. “O protocolo simplificou análises já existentes, eliminou alguns reagentes e tornou o processo mais acessível. Por isso, a BioAS reúne características importantes para o produtor: é uma análise simples, rápida, prática e de baixo custo, além de gerar resultados bastante robustos”.
Pontes ressalta que a metodologia não identifica quais microrganismos estão presentes no solo, mas indica o nível geral da atividade biológica. “Quando queremos identificar quais grupos de microrganismos estão presentes, utilizamos outras ferramentas, como a metagenômica, que analisa o DNA desses organismos. A BioAS funciona como uma análise mais simples para avaliar a saúde biológica do solo”.
Desenvolvida originalmente pela Embrapa para culturas de cereais como um indicador da qualidade biológica do solo, a metodologia foi aplicada pela equipe do IF Goiano na cultura da batata. A partir dessa aplicação, os pesquisadores observaram que áreas com maior atividade da enzima beta-glucosidase apresentavam menor incidência de doenças. “O tubérculo de batata, que é a parte destinada ao processamento industrial, pode ser afetado por doenças como a sarna comum e a podridão mole. Quando encontramos maior atividade microbiana no solo, muito provavelmente havia uma redução da ação dos patógenos, caracterizando um solo mais supressivo e, consequentemente, batatas mais saudáveis e de melhor qualidade”, afirma.
Segundo Pontes, uma atividade de beta-glucosidase acima de 100 pontos e de arilsulfatase entre 40 e 50 pontos indica um solo em boas condições. De forma geral, quanto maiores esses indicadores, melhor a saúde biológica do solo. Os pesquisadores observaram uma correlação positiva e estatisticamente significativa superior a 30%. “À medida que conseguimos melhorar a atividade microbiana e a saúde do solo, registramos uma redução em torno de 30% na incidência de doenças”, diz.
Para o pesquisador, apenas informar ao produtor se o solo está em boas ou más condições não é suficiente. O objetivo do projeto passou a ser indicar caminhos para recuperar essa condição. “Por isso, o foco do projeto passou a ser a recuperação da saúde do solo por meio de práticas da agricultura regenerativa, como o uso de plantas de cobertura e de bioinsumos. Essas práticas melhoram a qualidade microbiológica do solo e, como consequência, reduzem problemas com doenças e aumentam a produtividade. A BioAS nos permitiu validar cientificamente esses protocolos”.