Estudo inédito da Angus quer identificar touros que elevam qualidade da carne meio-sangue

A Associação Brasileira de Angus lançou uma iniciativa inédita para identificar, com base em genética e dados de carcaça, quais touros da raça têm maior potencial para produzir animais meio-sangue de melhor qualidade no cruzamento com vacas zebuínas, principalmente Nelore. O objetivo é aumentar a previsibilidade da qualidade da carne e elevar o número de bovinos certificados no Programa Carne Angus.

O chamado cruzamento industrial, que combina a genética Angus com rebanhos comerciais zebuínos, tem ganhado espaço na pecuária brasileira, especialmente no Centro-Oeste. Atualmente, os animais meio-sangue representam a maioria dos abates do programa, embora o percentual exato não seja divulgado.

Detalhes do estudo

“Todas as informações de carcaça que temos hoje dentro da raça Angus foram desenvolvidas com base na raça pura. Queremos entender como essas características passam para os bezerros quando ocorre essa heterose”, explica Carolina Silveira, assistente de fomento e coordenadora da recém-criada Instituição Científica Tecnológica (ICT) da associação.

A etapa de campo começa em 14 de julho, com a meta inicial de coletar 6 mil amostras genéticas de fêmeas meio-sangue certificadas pelo Programa Carne Angus. A expectativa é ter uma primeira listagem preliminar de touros melhoradores em 2027. Futuramente, a coleta total deve ser ampliada para 10 mil animais, com análises físico-químicas em 3 mil amostras de carne.

Um protocolo inédito de coleta foi desenvolvido com base na tecnologia TSU para extrair amostras de tecido muscular diretamente das carcaças resfriadas, adaptando uma técnica antes restrita à coleta de cartilagem de orelha. A iniciativa conta com apoio da Embrapa Pecuária Sul, de Bagé (RS).

Benefícios esperados

Em uma segunda etapa, a associação pretende usar a base de dados para desenvolver novas diferenças esperadas de progênie (DEPs), incluindo uma possível DEP voltada à maciez da carne. “O consumidor vem exigindo carnes macias, suculentas, de qualidade”, justifica Carolina.

Segundo ela, já existem exemplares meio-sangue de excelente qualidade, mas a ideia é fornecer ferramentas para que o criador tome decisões mais assertivas. “No momento em que há essa padronização, aumenta a rentabilidade para o criador, porque quando ele leva esses animais para o frigorífico a chance de todos serem certificados é muito maior”, explica.

Além dos ganhos na qualidade da carne, há também o componente da sustentabilidade: animais mais eficientes podem ser abatidos mais jovens, reduzindo insumos, dejetos e emissões de gases.

Impacto no programa

No ano passado, o Programa Carne Angus abateu 612,2 mil animais, alta de 20% em relação ao ano anterior. No entanto, o gerente nacional do programa, Maychel Borges, informa que um a cada quatro animais é desclassificado por acabamento de carcaça ou idade. “São animais que poderiam virar carne de qualidade e por algum motivo não viraram”, afirma.

A expectativa é que a identificação dos touros com maior potencial para cruzamento com raças zebuínas gere ganhos tanto em qualidade quanto em quantidade de animais certificados, que remunera o pecuarista pela qualidade da carne. “Com esses dados em mãos, nós conseguimos melhorar o jogo e trazer bons frutos ao produtor”, conclui Borges.

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