Expansão do agronegócio revela lacunas em gestão e liderança

O agronegócio brasileiro vive um processo de expansão e transformação empresarial. Fazendas que durante décadas foram administradas pelos próprios proprietários e suas famílias se tornaram operações mais complexas, com metas de crescimento, investimentos em tecnologia, equipes maiores e estruturas de governança. O avanço dos negócios, porém, traz o desafio de encontrar lideranças capazes de acompanhar essa evolução e profissionalizar a gestão.

Um levantamento inédito da CNA sobre o mercado de trabalho na agropecuária, realizado em parceria com o Cepea/Esalq-USP, dimensiona a dificuldade de contratação: 94,8% dos produtores entrevistados relataram algum obstáculo para preencher vagas e 84,3% disseram operar com equipes abaixo do necessário. Entre as consequências estão atrasos nas operações, adiamento de planos de expansão e aumento dos custos com mão de obra.

Mas o desafio não se limita à disponibilidade de trabalhadores. A modernização do setor também exige profissionais capazes de assumir posições estratégicas, liderar equipes, implementar processos e conduzir mudanças organizacionais. Quem acompanha esse movimento de perto é a psicóloga Paola Salgado, CEO da PS Contrata, consultoria especializada em recrutamento de lideranças. Criada no ambiente do agro, ela conhece o outro lado da porteira, o da mesa de reunião, onde as decisões travam. “O crescimento não cria todos os problemas da empresa. Ele revela o que a estrutura menor ainda conseguia esconder”, diz.

Segundo ela, o fundador que centraliza tudo, o profissional que acumula funções e a comunicação feita no corredor funcionam bem enquanto o negócio é pequeno. Quando ele ganha escala, deixam de funcionar. “O dono decidia tudo e resolvia na conversa. Quando a operação cresce, isso não se sustenta, e a crise aparece mesmo com o resultado comercial indo bem”, afirma.

Contratar mais gente nem sempre resolve

O reflexo natural de quem sente o peso é abrir vagas. Para Paola, nem sempre é o melhor caminho. “Adicionar pessoas a uma estrutura desorganizada pode ampliar as dificuldades”, alerta. Antes de contratar, diz ela, é preciso fazer perguntas menos confortáveis. Que responsabilidades precisam sair da mão do dono? Que processos ainda não existem? Que mudanças a empresa precisa fazer para sustentar a próxima fase? “A pergunta não é quantas pessoas faltam. É o que hoje depende só do dono e precisa deixar de depender”, resume.

É aí que o diretor ganha protagonismo. “Hoje, muitos diretores atuam como uma ponte entre o proprietário e toda a operação. Eles precisam tomar decisões rápidas, liderar equipes, administrar conflitos, implementar mudanças e manter o crescimento sustentável do negócio”, afirma Paola. O perfil é raro. Quem conhece o campo nem sempre domina gestão, e quem vem da gestão nem sempre entende a rotina e os códigos de uma fazenda familiar. “É um profissional que precisa falar a língua do peão e a da diretoria”, avalia.

Mudar é só metade do trabalho. A outra metade é fazer isso sem atropelar quem construiu a fazenda. “Muitas vezes, o diretor precisa profissionalizar uma empresa familiar sem romper com sua cultura. Ele precisa criar processos, desenvolver lideranças e dar autonomia às equipes, mantendo a confiança do proprietário e garantindo que a operação continue crescendo”, explica.

Tecnologia sozinha não basta

A conversa sobre gestão se cruza com a da tecnologia. O Índice de Transformação Digital Brasil 2025, da PwC com a Fundação Dom Cabral, mostra que a maturidade digital do agronegócio subiu de 3,1 em 2024 para 3,6 em 2025. Ainda assim, 54% das empresas ouvidas disseram ter dificuldade para organizar a digitalização como processo, e 49% apontaram barreiras de cultura e de estrutura organizacional. Para Paola, o dado confirma o que ela vê na prática. “Não adianta ter tecnologia de ponta se a gestão não acompanha. Máquina não integra pessoas e processos. Quem faz isso é a liderança.”

A PS Contrata acompanha essa transformação por meio de projetos desenvolvidos para empresas de grande porte e relevância no agronegócio brasileiro. Entre seus clientes estão o Grupo AgroParaná, referência na pecuária de corte, com operações de criação e melhoramento genético de bovinos da raça Nelore, além de produção agrícola; a True Type, cuja fazenda está entre as 40 maiores produtoras de leite do país, segundo o ranking Top 100 MilkPoint 2025; a BRPEC Agropecuária, que integra a pecuária de ciclo completo, com atividades de cria, recria e confinamento de bovinos, à produção de soja e milho; e o Grupo Odilon Santos, conglomerado empresarial com atuação nos segmentos de mobilidade, transporte, agronegócio e gestão imobiliária.

Para as empresas familiares do agro, profissionalizar deixou de ser uma etapa desejável e virou condição para continuar crescendo. O desafio é montar estruturas que acompanhem a expansão, dividam responsabilidades e preparem novas lideranças sem perder a identidade que deu origem ao negócio. “Profissionalizar não é apagar a história da família. É criar as condições para que ela continue”, conclui Paola.

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