O Brasil atingiu 78,86% da cota de exportação de carne bovina para a China até junho, segundo dados divulgados na segunda-feira (20/7) pelo governo chinês. Exportadores e analistas avaliam que a cota está “virtualmente preenchida”.
Os dados, divulgados pela Administração-Geral de Alfândegas da China (GACC) e pelo Ministério do Comércio (Mofcom), indicam que entraram no país 872,2 mil toneladas de carne bovina in natura importadas do Brasil no primeiro semestre deste ano. Em junho, a importação internalizada foi de 148,7 mil toneladas. A cota total é de 1,106 milhão de toneladas com tarifa de 12%; o que exceder esse volume pagará sobretaxa de 55% ou estará sujeito a devoluções ou postergação do desembaraço.
Há um descompasso entre o que foi embarcado no Brasil e o que chegou na China em 2026. As exportações registradas pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) apontam para 774,1 mil toneladas. Os chineses consideram cargas enviadas nos últimos meses de 2025 e internalizadas a partir de 1º de janeiro deste ano. Os exportadores brasileiros estimam que 227,7 mil toneladas já embarcadas ainda estão em trânsito, deixando um “saldo livre” de cota de quase 5,9 mil toneladas.
Diante desse cenário, todos os frigoríficos habilitados para a China já adotaram medidas como redução de abates, concessão de férias coletivas e até demissões. A produção de cortes específicos para o mercado chinês foi interrompida no fim de junho, e poucos embarques devem ser realizados em julho devido ao risco de as cargas chegarem fora da cota. A expectativa é que a China anuncie ainda esta semana o preenchimento de 80% da cota brasileira e que os 100% sejam atingidos em agosto.
Na semana passada, o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, estimou que as exportações brasileiras para a China ficarão próximas de 900 mil toneladas em 2026, utilizando a totalidade da cota. A produção deverá ser retomada em outubro e os embarques em meados de novembro, para ocupar a cota de 2027.
Há um estranhamento no mercado sobre o ritmo de internalização das cargas na China. Fernando Iglesias, analista da consultoria Safras e Mercado, afirmou que, pelo ritmo de exportação, o Brasil já deveria ter atingido os 80% há algum tempo. “Ou a logística está demorando mais que o previsto ou a própria alfândega chinesa está demorando muito para liberar o produto”, disse.
Em comparação com outros países, as exportações americanas estão praticamente zeradas, com apenas 876 toneladas de janeiro a junho (0,53% da cota de 164 mil toneladas). A Nova Zelândia vendeu 59,5 mil toneladas (29% da cota de 206 mil toneladas) e o Uruguai exportou 82,3 mil toneladas (25,4% da cota de 324 mil toneladas). A Austrália já ultrapassou sua cota de 205 mil toneladas, com 588 toneladas extra cota. A Argentina exportou 239,5 mil toneladas (47% da cota de 511 mil toneladas).
A Safras e Mercado analisou que os dados de importação da China em junho mostram aceleração das vendas da Nova Zelândia e que movimento semelhante poderá ocorrer com Argentina e Uruguai após o esgotamento da cota brasileira. “Os dados das exportações brasileiras de julho serão fundamentais para entender como os embarques se comportarão nesse novo cenário. A notícia positiva está no avanço da demanda dos Estados Unidos, de Hong Kong, do Uruguai e da Argentina. No caso dos três últimos, o aumento das compras pode indicar triangulação comercial para que o produto alcance indiretamente o mercado chinês”, afirmou a consultoria.
Ao todo, a China importou 1,5 milhão de toneladas de carne bovina in natura de janeiro a junho de diversos fornecedores, equivalente a 56,9% da cota de 2,6 milhões estabelecida para este ano.