Com o esgotamento da cota de importação de carne bovina do Brasil pela China em 2026, a demanda global pela proteína brasileira deve recuar, impactando os preços recebidos pela indústria exportadora no segundo semestre. A previsão da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) é de uma redução de 10% nas exportações em relação a 2025, quando foram embarcadas 3,5 milhões de toneladas. O faturamento também pode cair, reflexo da desaceleração dos preços a partir de julho.
Entre janeiro e junho de 2026, as vendas externas somaram 1,7 milhão de toneladas — alta de 15,5% na comparação com o primeiro semestre de 2025 — e US$ 9,8 bilhões em receita, incremento de 36,2%. Os preços médios subiram quase 18%, para US$ 5,7 mil por tonelada.
“Vimos um movimento de vendas muito positivo para a China, mas com as cotas, o ritmo diminuiu. Quando o mundo sabe que não tem um grande comprador disponível como a China, todas as negociações perdem pressão de preço”, afirmou Roberto Perosa, presidente da Abiec, em coletiva de imprensa.
Segundo Perosa, os efeitos da queda nas vendas globais e do recuo nos preços pagos em relação ao pico anterior serão repassados ao mercado interno, com impacto “em toda a cadeia”. Esse movimento pode limitar eventuais quedas no preço da carne bovina para o consumidor brasileiro. A Abiec projeta uma redução na produção total de carne pelos frigoríficos, devido à menor demanda externa, o que restringirá a oferta internamente e elevará os preços no médio prazo.
“Em um primeiro momento, pode haver arrefecimento do preço no mercado interno, mas os custos não diminuíram. Deve haver diminuição da produção e, com isso, o preço volta a subir, pois há menos oferta. É um efeito rebote”, explicou. “Se continuássemos com a mesma produção do ano passado, o preço cairia, mas como não há destinação, não há razões para a indústria continuar produzindo para exportação.”
Perosa destacou que a formação de preço da carne no mercado interno depende diretamente do desempenho externo. “A exportação complementa e faz um mix que nos permite não fazer elevação aguda de preços no mercado interno. Esse mix não existe agora por conta da interrupção temporária de vendas para a China. A maioria das indústrias está trabalhando no vermelho.”
O executivo ponderou que o setor vinha de “bons anos” de receita, mas todas as empresas foram afetadas. Algumas deram férias coletivas, outras fizeram demissões, readequaram quadros e reduziram o ritmo de abate para “tentar passar esse período sem demanda forte da Ásia”.
“As dificuldades na China, a interrupção temporária para a União Europeia, questões geopolíticas e guerras devem impactar as exportações brasileiras neste ano. Deve haver queda do preço de exportação, pois não há tanta disputa pela carne brasileira”, concluiu.