Enquanto Argentina e Inglaterra se enfrentam em mais uma semifinal de Copa do Mundo, um dos símbolos da rivalidade entre os dois países está a quase 13 mil quilômetros do estádio. No Atlântico Sul, as Ilhas Malvinas — chamadas de Falkland pelos britânicos — continuam no centro de uma disputa diplomática que começou muito antes do futebol.
Embora a Guerra das Malvinas, travada em 1982, tenha marcado a história do arquipélago, a rotina local hoje é bem diferente dos conflitos militares. Com pouco mais de 3 mil moradores permanentes, as ilhas abrigam cerca de 500 mil ovelhas — o equivalente a mais de 140 animais por habitante. A criação de ovinos é uma das principais atividades econômicas do território, atrás apenas da pesca.
Distribuídos por aproximadamente 88 propriedades rurais, os rebanhos são criados em grandes áreas de pastagens naturais, favorecidas pelo clima frio, ventoso e de baixa densidade populacional. A produção é voltada principalmente para lã fina e carne de cordeiro. Segundo dados do governo local, são produzidos cerca de 1,7 milhão de quilos de lã por ano. Grande parte é exportada para mercados internacionais, especialmente para a indústria têxtil europeia e asiática, onde a fibra é valorizada pela qualidade. A carne ovina também abastece o mercado externo, principalmente Reino Unido e países da Europa.
Além das ovelhas, há criação de bovinos de corte, com raças britânicas como Angus, Hereford, Devon e Murray Grey. A produção, porém, é significativamente menor que a atividade ovina.
Agro moldado pelo isolamento
O isolamento geográfico influencia toda a cadeia produtiva. A agricultura é bastante limitada pelas condições climáticas e pelos solos rasos, fazendo com que praticamente todos os vegetais, frutas e alimentos industrializados consumidos pela população sejam importados. Há pequenas produções em estufas, responsáveis pelo cultivo de hortaliças, batatas, cebolas e morangos para abastecimento local, mas em escala insuficiente para atender toda a demanda.
Por outro lado, a pecuária extensiva exige pouca infraestrutura. As fazendas ocupam grandes áreas e utilizam cães da raça Border Collie no manejo dos rebanhos, uma tradição herdada da cultura rural britânica que segue viva nas ilhas e até inspira competições entre os pastores.
A guerra mudou a economia
Após a Guerra das Malvinas, em 1982, o Reino Unido ampliou sua presença nas ilhas e investiu em infraestrutura, impulsionando a economia local. A maior demanda por alimentos e serviços estimulou pequenos negócios e a modernização da pecuária, com melhorias na genética dos rebanhos e na qualidade da lã destinada à exportação.
Relação comercial passa longe da disputa diplomática
Apesar da disputa pela soberania permanecer viva na política, com a Argentina continuando a reivindicar o arquipélago e o Reino Unido mantendo sua administração, a produção agropecuária das ilhas segue integrada ao mercado internacional. O principal destino das exportações continua sendo o Reino Unido e outros países europeus, beneficiados por acordos comerciais firmados pelo território ultramarino britânico.
Já a Argentina mantém restrições políticas e comerciais relacionadas às ilhas, embora a proximidade geográfica faça com que parte da logística regional envolva países vizinhos, especialmente Chile e Uruguai.
Enquanto a rivalidade entre argentinos e ingleses costuma ganhar os holofotes durante os confrontos no futebol, nas Malvinas o ritmo é outro. Entre campos abertos, ventos constantes e enormes rebanhos de ovinos, a economia do arquipélago continua sendo conduzida muito mais pela produção de lã e cordeiros do que pelas disputas que marcaram sua história.