Imagine uma balança. De um lado, tudo o que uma fazenda emite: combustível, fermentação do gado, fertilizantes, energia elétrica. Do outro, tudo o que ela retira do ar e guarda – sobretudo o carbono que as raízes das plantas empurram para dentro do solo, onde pode ficar estocado por décadas. Quando a emissão supera a remoção, o saldo é positivo: a propriedade é fonte de gases de efeito estufa. Quando a remoção supera a emissão, o saldo é negativo – e a fazenda funciona como um sumidouro, um dreno que ajuda a limpar a atmosfera.
Na Fazenda São Pedro da Mantiqueira, em Pindamonhangaba (SP), a conta fecha no negativo. A propriedade sequestra mais carbono do que emite, contrariando a intuição de que toda fazenda é necessariamente uma fonte líquida de GEE. O feito foi possível graças a um manejo regenerativo integrado e a uma medição rigorosa, auditada pela KPMG.
O inventário verificado
O balanço de gases de efeito estufa foi calculado pela pesquisadora Susian Christian Martins, mestre em ciência do solo e doutora em ciências, seguindo o GHG Protocol Agropecuário. A verificação independente foi realizada pela KPMG. Medir emissões é relativamente simples – conta-se o diesel, o rebanho, o adubo. Já medir a remoção de carbono no solo é mais complexo, e exige o uso de diferentes níveis (tiers) de precisão definidos pelo IPCC, o painel científico da ONU sobre clima.
O estudo utilizou desde fatores nacionais padronizados (Tier 2) até medição direta de carbono em amostras de solo por análise laboratorial (Tier 3 Métrico), o padrão ouro. Quanto mais os dados vêm de medição própria da fazenda, maior o sequestro reconhecido. Os parâmetros genéricos não conseguem capturar o impacto positivo do Sistema Regenerativo Integrado Roncador, que captura mais carbono no solo do que o manejo convencional.
O fluxo de carbono efêmero
Além do estoque permanente, há o carbono efêmero: o fluxo anual de carbono que as plantas fixam e que, em boa parte, volta relativamente rápido à atmosfera. Esse carbono temporário é contabilizado com rigor: apenas o que de fato se torna estoque temporário real é considerado – o que vira tecido animal, biomassa de microrganismos do solo e a parcela do esterco que se estabiliza. O restante – respiração microbiana, metano – é descontado.
Na pecuária, por exemplo, de cada porção de carbono ingerida pelo animal, só uma fração permanece como carbono guardado. O carbono efêmero fixado em um único ano – em grão e biomassa – está na mesma ordem de grandeza das emissões diretas e de energia do mesmo período. Vale destacar que esse fluxo não faz parte do balanço de GEE verificado, sendo apresentado à parte para distinguir medição de estoque de leitura de fluxo.
Conclusão: sustentabilidade com produtividade
A experiência da Fazenda São Pedro da Mantiqueira mostra que é possível conciliar produção agropecuária com remoção de carbono da atmosfera. O manejo regenerativo, aliado a uma contabilidade rigorosa dos gases, transformou a propriedade em um sumidouro de carbono – e, de quebra, aumentou a produtividade e a renda do produtor. Um exemplo prático de que sustentabilidade não é custo, mas investimento.