Quem já observou uma plantação de girassóis provavelmente notou que as flores parecem todas apontar na mesma direção. A fama de “seguir o Sol” não surgiu por acaso: durante uma fase específica do desenvolvimento, as inflorescências realmente mudam de posição ao longo do dia, acompanhando o deslocamento aparente do astro no céu. No entanto, esse movimento tem início e fim bem definidos.
Enquanto a planta ainda está em crescimento, a inflorescência se desloca de leste para oeste durante o dia e retorna ao leste à noite. Após o amadurecimento da flor, ela deixa de acompanhar o Sol e permanece, em geral, voltada para o leste.
O que é o heliotropismo?
O fenômeno é conhecido como heliotropismo e ocorre devido ao crescimento desigual dos dois lados do caule. Durante o dia, o lado leste cresce mais rapidamente, fazendo a flor se inclinar para oeste. À noite, o processo se inverte: o lado oeste cresce mais e a inflorescência retorna para o leste.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Davis, e da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, revelou que esse movimento não depende apenas da luz recebida no momento. Nos experimentos, os girassóis continuaram apresentando movimentos por alguns dias mesmo sob iluminação constante. Para os cientistas, o resultado indica a participação do relógio circadiano, um mecanismo interno que ajuda a planta a organizar processos conforme um ciclo de aproximadamente 24 horas. É esse relógio que auxilia o girassol a se reposicionar durante a noite, antes do amanhecer.
O movimento não ocorre de uma só vez: ele resulta da diferença de crescimento entre os dois lados do caule. Mas como a planta percebe o Sol?
Como o girassol percebe a luz solar?
A Universidade da Califórnia, em Davis, mostrou que a história é mais complexa. A equipe comparou a resposta de girassóis acompanhando o Sol no campo com a de plantas submetidas ao fototropismo em condições controladas. Os padrões de expressão dos genes foram diferentes nos dois casos. Os resultados indicaram que o heliotropismo não é simplesmente uma versão mais sofisticada do fototropismo e envolve diferentes vias de sinalização luminosa.
Os pesquisadores também observaram mudanças na atividade dos genes durante os movimentos diurno e noturno. Mesmo assim, não encontraram um único mecanismo capaz de explicar como o girassol realiza o rastreamento solar. Por enquanto, sabe-se que o movimento envolve a percepção da luz, o crescimento desigual do caule e o relógio circadiano. A forma como esses processos trabalham juntos ainda é objeto de estudo.
Por que a flor adulta fica virada para o leste?
Quando o girassol amadurece, a movimentação cessa. Em vez de continuar acompanhando o Sol, a inflorescência fica voltada principalmente para o leste. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Eötvös Loránd, na Hungria, ajuda a dimensionar esse padrão. Publicado em 2022, o trabalho analisou cerca de 2.800 cabeças de girassol em 14 plantações, fotografadas por drones. A orientação média foi de 89,5 graus, praticamente o leste geográfico.
Isso não significa, porém, que as flores estejam necessariamente apontando para o ponto exato onde o Sol nasce. Essa posição varia conforme a época do ano e a localização. Os pesquisadores também encontraram exceções. Em uma das plantações analisadas, por exemplo, as flores estavam voltadas para o sul. O local tinha períodos de sombreamento, e essa posição permitia aproveitar melhor a luz disponível.
A luz também aparece como uma possível explicação para a preferência pelo leste. Estudos anteriores indicaram que, em determinadas condições de radiação e nebulosidade, essa orientação pode fazer a inflorescência absorver mais energia ao longo do dia. Outra hipótese envolve os polinizadores. Pesquisas mostraram que flores voltadas para o leste podem ficar mais aquecidas nas primeiras horas da manhã, quando abelhas e outros polinizadores estão começando a visitar a plantação. Esse aquecimento pode influenciar a visitação e alguns aspectos da reprodução da planta.
Até o vento já entrou na investigação. Os pesquisadores de Eötvös Loránd também analisaram dados de diferentes regiões para verificar se os ventos predominantes poderiam explicar a orientação das flores maduras. A hipótese não se sustentou: a direção dos ventos não apresentou uma relação consistente com a posição leste dos girassóis.