O que antes era visto como uma opção para os produtores rurais brasileiros agora se transformou em uma necessidade diante do avanço das mudanças climáticas. A intensificação dos efeitos do clima no campo exigirá mais irrigação para garantir a produção e a estabilidade no fornecimento de alimentos, conforme alertaram pesquisadores durante o Fórum Mais Milho, promovido pela Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), em Brasília.
Lineu Rodrigues, pesquisador da Embrapa Cerrados e um dos idealizadores da Rede Nacional de Irrigantes (Renai), destacou que a produção de grãos no sistema de sequeiro no Brasil era competitiva até agora, mas a realidade se tornou mais desafiadora. “O cenário está mudando, vamos ter que irrigar mais”, afirmou. “Até hoje, a produção do Brasil em sequeiro era competitiva, mas agora o clima está mudando. A irrigação vai ser cada vez mais importante”, completou.
Rodrigues defendeu investimentos em monitoramento climático e geração de dados para que o agricultor possa planejar a atividade com mais detalhes. “A irrigação vai ser essencial no Brasil daqui para a frente”, concluiu.
Ronaldo Torres, pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), lembrou que o alto nível de endividamento no campo é causado, principalmente, por frustrações de safras decorrentes de estresse hídrico. “A irrigação pode ser uma solução para problemas decorrentes de estresse hídrico e eventos climáticos, como El Niño e La Niña, cada vez mais recorrentes”, apontou.
O Brasil tem capacidade de aumentar em 53,4 milhões de hectares a área irrigada e ultrapassar os 60 milhões de hectares no longo prazo, de acordo com Durval Dourado Neto, professor da Esalq, que participou do evento. Segundo ele, o uso da irrigação no campo não compromete a disponibilidade de água e trata-se de uma “solução estratégica, sem desmatamento, com efeito poupa-terra”.
Estudos citados pelo professor indicam que, no médio prazo, é possível desenvolver um plano nacional de segurança alimentar para ampliar em 15,5 milhões de hectares nos próximos 30 anos a área irrigada. Desse total, 6,4 milhões de hectares estão em locais “mais fáceis” para a implementação da irrigação, podendo surtir efeito de curto prazo. Segundo ele, é possível incrementar 2,1 milhões de hectares a cada quatro anos em áreas adjacentes aos oito principais polos agrícolas irrigados do Brasil, onde já existe aptidão agrícola, mão de obra especializada e disponível.
“É importante ter a ciência norteando a agricultura. O Plano Nacional de Irrigação pode dobrar a área adicional irrigável nos próximos anos e fazer isso com sustentabilidade, preservando água e floresta”, disse. “Essa solução dá segurança alimentar para o mundo”, completou.
Gustavo Goretti, pesquisador nas áreas de irrigação e conservação do solo, ressaltou que essa expansão potencial da área irrigada, no longo prazo, demandará de R$ 100 bilhões a R$ 150 bilhões em investimentos privados. “Precisamos tirar o pé do freio, nem precisa acelerar, precisamos deixar o produtor trabalhar”, afirmou.
Os desafios, segundo Goretti, continuam os mesmos de 20 anos atrás: dificuldades para obter licenciamento ambiental, já que a irrigação é considerada uma atividade e não uma tecnologia; armazenamento e outorga para uso de água; e disponibilidade e qualidade de energia elétrica.
Bernhard Kiep, diretor da Abramilho e membro da Câmara de Irrigação (CSEI) da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), disse que o Brasil desperdiça o potencial e os recursos naturais que tem para produzir. “Temos 12% da água doce do mundo, usamos menos de 1%. Somos campeões mundiais de desperdício de água doce. Precisamos usar melhor para o bem da humanidade”, completou.