Maira Lelis, ex-professora e agora presidente da Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto (FEBRAPDP), é a primeira mulher a comandar a entidade desde sua fundação em 1992. Em entrevista à Globo Rural, ela conta como trocou a sala de aula pelas lavouras e se tornou uma defensora do solo vivo e da sustentabilidade.
Da pedagogia à fazenda
Nascida em Guaíra (SP), Maira passou a infância na fazenda da família, mas mudou-se para a cidade para estudar. Formou-se em pedagogia e foi professora por mais de dez anos. Em 2014, com a saúde debilitada do pai, ela voltou à propriedade rural para assumir a gestão. “Quando cheguei à fazenda, era uma folha em branco. Sabia quais eram as culturas, mas não sabia nada sobre manejo, química do solo, cultivares”, relembra.
Com a autonomia dada pelo irmão, agrônomo, Maira aprendeu na prática. Sua primeira tarefa foi revisar uma colheitadeira. “Eu tinha um monte de orçamentos e não sabia onde ficava cada peça, mas aprendi.”
Aprendizado contínuo e respeito da equipe
Maira destaca que se tornou aluna novamente. “Tive que buscar conhecimento, e continua assim, todos os dias. Leio muito, participo de cursos, simpósios, absorvo do meu irmão, do meu filho, que é agrônomo, de professores e pesquisadores.”
Em um ambiente majoritariamente masculino, ela conquistou o respeito da equipe com diálogo e troca de informações. Hoje, a fazenda possui selo de soja sustentável para atender ao mercado europeu. “Os funcionários são todos homens e compraram a ideia da sustentabilidade e da qualidade.”
A filosofia do sistema plantio direto
Para Maira, o plantio direto vai além de não revolver o solo. É uma filosofia de produção que integra diversidade de culturas, rotação e cuidado com a biologia do solo. “Não é só plantar sobre a palha da cultura anterior, é cuidar do seu sistema com diversidade.” Ela conta que, em três anos agrícolas, um talhão pode receber mais de 20 raízes diferentes, reciclando nutrientes e alimentando microrganismos.
“O estoque de carbono em um solo produtivo com boas práticas se assemelha ao que temos em uma área de mata nativa.”
Com métricas de tudo, a fazenda conseguiu reduzir fertilizantes e inseticidas. “Solo saudável, vivo, resulta em uma planta saudável”, afirma. A nova revolução, segundo ela, é entender o solo e os patógenos. Exemplo disso é o cultivo de crambe, usado tanto para adubação quanto como biocombustível.
Liderança feminina no agro
Ao assumir a presidência da FEBRAPDP, Maira sucede agricultores icônicos como Herbert Bartz e Franke Dijkstra. Ela projeta que o plantio direto será adotado em 46 milhões de hectares no país em 2026. Sua trajetória mostra que é possível aliar conhecimento técnico, paixão pelo campo e sustentabilidade — uma inspiração para novas gerações.