A escalada de conflitos no Oriente Médio está impactando diretamente as exportações agropecuárias do Brasil, especialmente para carne de frango e soja. Com ameaças ao tráfego marítimo nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb, exportadores precisam buscar rotas alternativas e enfrentam aumentos significativos nos custos logísticos.
Desde os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã em março, a navegação pelo Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico, caiu drasticamente. Agora, os houthis do Iêmen, aliados do Irã, ameaçam navios que cruzam o Estreito de Bab el-Mandeb, acesso ao Mar Vermelho. A situação já provocou a paralisação de um navio com soja brasileira a caminho do Oriente Médio, conforme apurou o Valor.
Para contornar os bloqueios, as empresas estão recorrendo a portos alternativos. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) informa que a região é o principal destino do frango brasileiro. Uma opção é desembarcar em Omã, nos portos de Salalah e Sohar, e seguir por rodovias até os Emirados Árabes e sauditas. Outra rota é o porto de Khorfakkan, nos Emirados, antes do Estreito de Ormuz.
Para a Arábia Saudita, a alternativa é o Mar Mediterrâneo, via Canal de Suez, até os portos de Jeddah e King Abdullah, no Mar Vermelho. A Aurora, terceira maior exportadora de frango do Brasil, já utiliza essa rota, mas o executivo Ricardo Souza alerta que os portos estão lotados e há longas filas de caminhões. Ele afirma que, se Bab el-Mandeb for fechado, será um caos logístico, com demanda excessiva por portos fora da Arábia Saudita.
O custo do frete já triplicou em algumas rotas, e armadores como Maersk e CMA CGM criaram tarifas de emergência. Segundo Olivier Girard, da Macroinfra Consultores, a escalada pode elevar os custos do frete marítimo em 30% a 40% nas rotas entre Europa e Ásia, além de adicionar 19 dias de viagem. Para a Arábia Saudita, o aumento pode ser de 10% a 20%.
Leandro Gilio, professor do Insper, destaca três fatores que encarecem a logística: troca de rotas, insegurança (que eleva o seguro) e alta dos combustíveis. Para carnes resfriadas e congeladas, o custo é ainda maior, pois atrasos podem comprometer a qualidade. O aumento do frete geralmente é repassado ao importador, mas como muitos produtos têm baixo valor por tonelada, a margem e a demanda podem ser afetadas.
Outras cadeias, como a do algodão, também sofrem. A rota para Turquia, Paquistão e Bangladesh via Mar Vermelho terá que ser desviada pela África. O setor agropecuário brasileiro monitora a situação de perto, buscando minimizar os impactos sobre as exportações.