Por que o crédito verde com taxa reduzida ainda não decola no agro brasileiro?

O crédito rural com desconto de juros para quem adota boas práticas sustentáveis ainda é uma realidade distante para a maioria dos produtores brasileiros. Na safra 2025/26, as operações contratadas com redução de 0,5 ponto percentual somaram R$ 1,7 bilhão, contra uma oferta de R$ 6,3 bilhões.

Os números, compilados pelo Banco Central, mostram que apenas 257 operações tiveram a comprovação de práticas sustentáveis e o consequente abatimento nos juros. O volume liberado foi de R$ 105,1 milhões. No ciclo anterior, foram 321 operações e R$ 148,5 milhões.

Oferta menor em 2026/27

Para a temporada 2026/27, o governo reduziu a oferta de recursos com desconto para R$ 3,1 bilhões, abaixo das duas safras anteriores. A lista de instituições certificadoras habilitadas para o novo ciclo ainda não foi divulgada.

Burocracia trava acesso

Instituições financeiras e entidades do setor apontam a falta de automatização e o excesso de burocracia como os principais entraves. A agtech Produzindo Certo, que tem 3,5 mil produtores cadastrados, afirma que nenhum deles conseguiu o benefício até agora. A CEO Aline Locks diz que a falta de clareza nos procedimentos atrasou o cadastro na Plataforma AgroBrasil+Sustentável (AB+S).

“O desafio do momento é a burocracia”, afirma Locks. A empresa criou um manual para orientar produtores, mas defende que o processo deveria ser automático. “Se há interesse em realmente incentivar, talvez sem essa barreira operacional ajudaria a destravar essas operações”, diz Luis Eduardo Lapo, head de Finanças Verdes da agtech.

O vice-presidente da Aprosoja-MT, Luiz Bier, relata que algumas agências bancárias chegam a dizer que o programa está suspenso. “Temos vários produtores elegíveis, organizados, com toda a documentação em dia. Alguns pleitearam, mas já desistiram desse desconto”, conta.

Bancos e governo reconhecem dificuldades

A Febraban afirma que a concessão dos descontos depende da validação de dados de diferentes plataformas oficiais, o que exige maior integração entre sistemas. O Banco do Brasil informou que concluiu o desenvolvimento da solução tecnológica para viabilizar o bônus, mas a funcionalidade ainda não está disponível.

O Ministério da Agricultura, por sua vez, diz que o mecanismo avançou e reconhece que podem existir custos de transação e dificuldades operacionais entre a certificação e a contratação do crédito. A pasta afirma que acompanha a operacionalização e avalia oportunidades de aperfeiçoamento.

Enquanto isso, os produtores seguem esperando que o incentivo saia do papel e se torne uma ferramenta acessível para quem realmente adota práticas sustentáveis.

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