Com a safra 2026/27 sendo uma das mais desafiadoras em margens e custos, os produtores de soja brasileiros buscaram aproveitar o bom momento dos preços para acelerar as vendas. O grão atingiu a máxima do ano em setembro, impulsionando as negociações da safra que está sendo plantada.
Segundo Vlamir Brandalizze, consultor de mercado, o volume recorde de soja negociada antecipadamente chegou a 73,7 milhões de toneladas, o equivalente a 40% da produção esperada. “O produtor fez sua estratégia para garantir parte do faturamento para abril do ano que vem, além de aproveitar os bons momentos para o barter, já que a relação de troca o favoreceu”, explica.
O indicador Cepea/Esalq base porto de Paranaguá (PR) fechou setembro com média de R$ 161,14 a saca, com máxima de R$ 162. No mesmo período de 2025, o valor era de R$ 138. Fatores como demanda interna e externa e as elevações na bolsa de Chicago contribuíram para a alta.
Rafael Silveira, analista da Safras & Mercado, destaca que o produtor acelerou as vendas desde agosto. Dados da consultoria até 2 de outubro mostram comercialização de 32,9%, ante 23% no mesmo período do ano passado. “A continuidade desse ritmo forte vai depender do comportamento das cotações, influenciadas por oferta e demanda”, afirma.
Ariel Nunes, analista da Gran Center Commodities, estima vendas antecipadas de 35% da produção, mas alerta que o ideal seria 50% para cobrir custos, já que os preços estão nos maiores patamares em três temporadas. “Para os outros 50%, o recomendado é segurar, pensando no El Niño e possíveis perdas”, diz.
Após o pico de R$ 162, o preço da soja recuou para cerca de R$ 152 em outubro. Enilson Nogueira, da Céleres Consultoria, avalia que a melhor oportunidade de preços pode ter ficado para trás. “A não ser que haja outro fator de clima adverso ou demanda agressiva da China, não vejo espaço para nova alta que destrave as vendas”, comenta.
O comportamento do câmbio, dependendo do resultado das eleições presidenciais, pode trazer volatilidade. Um dia após o primeiro turno, com a vitória de Flávio Bolsonaro (PL), o dólar caiu 4,12% para R$ 5. Segundo Nogueira, uma eventual vitória de Lula poderia levar o dólar a R$ 5,20–R$ 5,30 e ser gatilho para novas vendas. Já Brandalizze aponta que, se Bolsonaro for eleito, o dólar pode cair para R$ 4,80, mas prêmios e futuros em Chicago podem neutralizar baixas maiores no Brasil.
Vendas de soja da safra 2026/27 já chegaram a 22% da produção esperada, superior aos 15% da média — Foto: Antônio Neto/Embrapa