A inadimplência no crédito rural para pessoas físicas atingiu um novo recorde em agosto, alcançando 9,7% da carteira total de recursos direcionados, provenientes de depósitos à vista e poupança rural. O índice cresceu quase dez vezes em três anos — em agosto de 2023, era de apenas 1%. O cenário reforça o alerta para possíveis reflexos na safra 2026/27, que começou a ser plantada.
Os dados, divulgados pelo Banco Central nas Estatísticas Monetárias e de Crédito, mostram que o índice de operações com atraso superior a 90 dias aumentou de forma contínua. Em julho, havia alcançado 8,8%, recorde já superado pelo número de agosto. Entre as pessoas jurídicas, a inadimplência chegou a 1%, o maior nível desde outubro de 2020 (5,8%).
Para o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos, os números refletem as dificuldades financeiras, o endividamento e a falta de liquidez observados no campo desde 2025. “A única ação que poderia mudar isso no curto prazo é a da renegociação das dívidas, e ela tem se mostrado que não tem este poder todo”, afirmou.
O endividamento e a inadimplência elevados têm impactado a concessão de novos financiamentos. Segundo Campos, a oferta de crédito está sendo feita com “mais cautela”. Lideranças do setor apontam que o ritmo de contratação das linhas tradicionais do crédito rural é o mais lento dos últimos cinco anos, e a área financiada pelo Plano Safra tem regredido.
David Télio, diretor de Novas Estruturas Financeiras da TerraMagna, destacou que alguns produtores têm deixado de pagar os bancos para usar o dinheiro da venda da produção passada na compra de insumos para a nova safra. “A inadimplência já está impactando nas restrições de crédito junto ao mercado financeiro. Porém, com a priorização de pagamentos dos insumos, as negociações, compras e consumos de insumos continuam com volumes equivalentes a safras anteriores”, disse.
O cenário de inadimplência das pessoas físicas piorou em agosto tanto nas operações a taxas de mercado (de 15,6% para 17,6%) quanto nos financiamentos com juros controlados (de 3,7% para 3,8%). O saldo da carteira de crédito rural com recursos direcionados para pessoas físicas era de R$ 557,7 bilhões em agosto. Já para pessoas jurídicas, o saldo era de R$ 127,1 bilhões, com inadimplência de 1,2% nas operações de mercado e 0,4% nas controladas.