Recordes no agro em 2026 escondem crise financeira dos produtores rurais

O agronegócio brasileiro vive um paradoxo em 2026. De um lado, indicadores macroeconômicos positivos apontam para safras recordes e crescimento do PIB do setor. De outro, produtores enfrentam custos crescentes, endividamento elevado e margens comprimidas. A expressão “tempestade perfeita” tem sido usada por lideranças do setor para descrever o momento atual, que combina alta de insumos, juros elevados, restrição de crédito, riscos climáticos e gargalos estruturais.

No primeiro trimestre, o PIB da agropecuária cresceu 0,7% em relação ao mesmo período de 2025, após expansão de 11,7% no ano anterior. A safra de grãos 2025/26 deve atingir 358 milhões de toneladas, segundo a Conab, com destaque para a soja (mais de 180 milhões de toneladas). As exportações do agronegócio evoluíram 4,5% em valor entre janeiro e maio, puxadas por carnes e soja (Secex).

No entanto, esses números agregados não refletem a realidade de quem está no campo. A recente alta dos fertilizantes exemplifica bem o problema. Impulsionados por conflitos geopolíticos, os preços dos nutrientes voltaram a subir de forma expressiva, atingindo os maiores níveis desde 2022. O Brasil depende de cerca de 85% dos fertilizantes importados, o que expõe a cadeia a riscos logísticos e comerciais. Outros insumos, como o diesel, também registraram alta, elevando os custos de transporte em um país ainda muito dependente do modal rodoviário.

Os riscos climáticos não podem ser ignorados: alertas indicam a formação de um El Niño rigoroso, com potencial de provocar perdas regionais. Apesar disso, iniciativas de mitigação ainda são limitadas. Ao mesmo tempo, a Selic elevada encarece o crédito e os bancos têm se mostrado mais cautelosos diante do aumento de recuperações judiciais, restringindo o financiamento de custeio, investimentos e renegociações de dívidas.

Do lado da receita, os preços recebidos pelos produtores não acompanham a evolução dos custos. No caso da soja, a ampliação da oferta global pressiona as cotações para baixo. A limitada capacidade de armazenamento do país força a venda mesmo em períodos de baixa, agravando a situação. Barreiras comerciais e regulatórias em mercados internacionais também exigem adaptações constantes.

O agro brasileiro continua mostrando sua força produtiva e contribuição em divisas, mas isso não se traduz necessariamente em rentabilidade para os produtores. A combinação de custos crescentes, crédito restrito, riscos climáticos e gargalos estruturais pode comprometer investimentos futuros e o desempenho das próximas safras.

O desafio vai além de medidas emergenciais. Exige avanços consistentes em logística, gestão de riscos, crédito e redução da dependência de insumos importados. Políticas de Estado de longo prazo e uma visão estratégica, articulando público e privado, são fundamentais para enfrentar vulnerabilidades que vão além da porteira.

Leandro Gilio é professor e pesquisador do Insper Agro Global. As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da Globo Rural.

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