O avanço da produção de ovos no sistema livre de gaiolas (cage-free) no Brasil ainda ocorre em ritmo lento, de acordo com a 3ª edição do Observatório do Ovo, divulgado pela organização de proteção animal Alianima. O país conta atualmente com 161 compromissos corporativos dos setores de alimentação e hotelaria para utilizar e vender exclusivamente ovos de galinhas livres. No entanto, a Alianima alerta que as medidas adotadas por grande parte das empresas podem não ser suficientes para cumprir essas metas no curto prazo.
Entre as empresas com algum compromisso relacionado ao cage-free, 17 são redes de supermercados e atacados, principal foco do relatório. A maioria estabeleceu o ano de 2028 como prazo para concluir a transição. Um questionário foi enviado a 30 empresas, incluindo 13 que ainda não possuem o compromisso de transição. A taxa de resposta foi de 47%.
No último ano, 64% das bandeiras que responderam não apresentaram qualquer avanço na transição. O Atacadão, do Grupo Carrefour, lidera o ranking dos atacadistas, seguido pelo Assaí, única rede com ao menos uma opção de ovos livres de gaiola em 100% de suas lojas. No varejo, quatro empresas já alcançaram o 100% cage-free: Casa Santa Luzia, St. Marche, Cia. Beal de Alimentos e Empório Varanda.
“Infelizmente, não vimos um super avanço. A maioria delas está estagnada ou com uma transição muito lenta”, afirma a zootecnista Maria Fernanda Martin, gerente de bem-estar animal da Alianima. “Se pensarmos que elas têm dois anos para conseguir terminar a transição, é de fato preocupante.”
Os principais obstáculos apontados pelas empresas são: alto custo dos ovos cage-free (67%), falta de conhecimento dos consumidores (44%), baixa oferta em algumas regiões (44%) e falta de apoio de associações (22%). O custo de produção do ovo livre de gaiola é de 10% a 18% superior ao convencional para o produtor, enquanto o orgânico pode chegar a 60% a mais para o consumidor.
Para fomentar a transição, a Alianima sugere contratos de longo prazo, expansão de linhas de crédito para adaptação de granjas e maior coordenação entre varejo e produtores. A preocupação cresce à medida que o consumo aumenta: o Brasil produziu 62,2 bilhões de ovos em 2025, com consumo per capita de 288 unidades, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Não há dados oficiais sobre a parcela da produção em sistema convencional.
Maria Fernanda explica que o sistema convencional com gaiolas prejudica o bem-estar animal e a imunidade. “A galinha fica em tamanho menor do que uma folha A4, passa dois anos ali, não consegue sequer esticar as asas completamente”, observa.
A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) informou que acompanha a evolução da transição e que o relatório demonstra progresso tanto na produção quanto na disponibilidade. O vice-presidente Marcio Milan destaca que o principal desafio é fortalecer a comunicação com o consumidor, já que a decisão de compra ainda é baseada principalmente no preço. “Por isso, entendemos que é fundamental construir uma comunicação integrada entre produtores, indústria e varejo”, afirma Milan.
Ele ressalta que a transição precisa ocorrer de forma responsável, equilibrando expansão da produção, capacidade de abastecimento e acessibilidade ao consumidor.