Safra 2026/27: custos altos, endividamento recorde e clima extremo pressionam agricultores brasileiros

Cenário é desafiador e vai exigir ainda mais planejamento para alcançar boa produtividade e rentabilidade.

Desde 2020, Tupanciretã, no noroeste do Rio Grande do Sul, é um dos municípios gaúchos que mais enfrentou prejuízos devido a problemas climáticos. Nesse período, a prefeitura emitiu seis decretos de emergência, sendo cinco ligados às secas e um devido às chuvas intensas. As perdas causadas nas lavouras provocaram uma “bola de neve financeira” nas contas do produtor Michel Rodrigues. Em 2021, após uma primeira perda de safra em sua propriedade de 1.500 hectares, onde planta soja e cria gado de corte, a estratégia inicial foi utilizar a reserva própria de caixa e buscar financiamentos em diferentes instituições bancárias.

Conforme os nomes dos titulares ficavam negativados pelo não pagamento dos empréstimos, as novas operações de crédito eram abertas no CPF de outros integrantes da família. Assim, três gerações – Michel, seu pai e sua filha – acabaram com restrições para buscar financiamentos. “Tudo isso porque não teve nenhum ano bom no meio para começarmos a equilibrar as contas”, lembra o produtor.

Sem crédito nos bancos e com as medidas de socorro travadas por conta de entraves burocráticos, os planos para a próxima safra de verão focam a sobrevivência do negócio. O planejamento inclui a compra de insumos direto com cooperativas via operações de barter ou parcelamento, a redução da área de soja e o corte de custos com adubação.

O relato do produtor gaúcho é um exemplo de como a combinação dos impactos gerados por fatores climáticos, mercadológicos e financeiros pressionou o fluxo de caixa dos agricultores brasileiros nos últimos anos, mesmo com volumes inéditos de produção, e deve gerar reflexos também no ciclo 2026/27. A nova safra será cultivada em um ambiente de elevado endividamento, inadimplência recorde, custos elevados, preços de commodities acomodados, piora na relação de troca de grãos por insumos, restrição de crédito e escassez de recursos para o seguro rural. O cenário é desafiador e vai exigir ainda mais planejamento para alcançar boa produtividade e rentabilidade.

Dívidas acumuladas travam financiamento da próxima safra

Em sua propriedade de 840 hectares em Caçapava do Sul (RS) – dos quais 710 são arrendados –, o produtor Diego Mariani também enfrenta os impactos de cinco anos de adversidades climáticas. O caixa esgotou, e a crise financeira afetou sua capacidade de pagamento. Sem conseguir renegociar os passivos antigos, o crédito bancário para o ciclo 2026/27 travou. “Buscamos financiamentos em bancos e na cooperativa, mas conseguimos saldar apenas 30%. Quanto às instituições financeiras, não vamos conseguir acessar praticamente nada”, afirma.

Para viabilizar os insumos nas últimas safras, a saída foi recorrer ao sistema de barter com a Coocal e a Cotrisul, trocando sementes e fertilizantes por grãos futuros. Agora, a meta é enxugar o orçamento. “A estratégia é buscar o famoso ‘feijão com arroz’. Fazer a lavoura mais enxuta possível, gastando o mínimo para tentar tirar uma produção média, sem empregar altas tecnologias”, detalha.

Com 2.500 associados e um faturamento de R$ 2 bilhões em 2025, a Cotrisul absorve os impactos de cinco anos de secas e enchentes no Rio Grande do Sul. No pátio de sua maior unidade, em Cachoeira do Sul, a reportagem encontrou quase 20 máquinas agrícolas entregues por produtores rurais para saldar dívidas com a cooperativa. “Esse é o maior sinal de que as coisas não estão bem. Quando a situação está boa, esse pátio está vazio”, declara o presidente da Cotrisul, Gilberto Dickel da Fontoura.

Como o sistema bancário não supre toda a demanda por financiamento, a cooperativa passou a fornecer crédito e insumos. No entanto, com as perdas na colheita, os associados acumularam dívidas. Segundo Fontoura, para tentar atenuar as dificuldades do momento, a Cotrisul oferece consultoria financeira e orientação técnica focada na redução de custos.

Margens apertadas no campo

As margens de lucro no campo também foram afetadas por um longo período de juros elevados na economia nacional e pelo incremento contínuo dos custos, puxados pela alta dos insumos, como fertilizantes e defensivos químicos importados – situação agravada por duas guerras simultâneas, na Ucrânia e no Oriente Médio. Produtores também relatam efeitos da inflação no arrendamento de terras e na prestação de serviços.

A “ressaca” gerada pela redução da rentabilidade se transformou em aumento de inadimplência no crédito rural, que bateu recorde de 8,8% em julho de 2026 entre pessoas físicas, e em pedidos de recuperação judicial, que chegaram a quase 2.000 solicitações em 2025 entre produtores e empresas do agronegócio. Com dívidas crescentes dentro e fora dos bancos, o crédito ficou ainda mais caro e restrito em 2026.

O cenário é agravado pela perspectiva de ocorrência de um El Niño de intensidade muito forte, com a possibilidade de causar veranicos na fase de enchimento de grãos da safra do Centro-Oeste e chuvas acima da média na Região Sul. A redução no uso de insumos é uma das poucas saídas encontradas para diminuir custos em um contexto de pressão financeira. A Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg) indica que a estratégia, que já foi usada na segunda safra de milho 2025/26, deve ser replicada em 2026/27.

Os produtores rurais brasileiros se preparam para mais uma safra marcada por incertezas, onde o planejamento financeiro e a eficiência agronômica serão determinantes para a sobrevivência do negócio.

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