A segunda safra de milho em Goiás, um dos maiores produtores do país, deve registrar uma redução de 30% na colheita do ciclo 2025/26. A estimativa, que aponta para 4 milhões de toneladas a menos do cereal, impacta diretamente o caixa dos agricultores, a economia dos municípios do interior e o abastecimento de fábricas de ração e usinas de etanol locais.
De acordo com a Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), o atraso no plantio e na colheita da soja no verão fez com que 43% dos produtores semeassem o milho fora da janela ideal, algumas áreas até 15 de março, quando o recomendado é até 25 de fevereiro. Além disso, o volume de chuvas foi menor ao longo do ciclo, com déficit de até 600 mm em algumas regiões. Para conter custos, muitos agricultores reduziram a adubação e as aplicações de fungicidas.
Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que cerca de 80% da área da safrinha, de 1,7 milhão de hectares, já foi colhida. A expectativa é de queda de 31,4%, passando de 12,7 milhões para 8,7 milhões de toneladas.
O produtor Jonny Chaparini, que investiu pesado em 147 hectares em Montividiu, no sudoeste goiano, relata que a produtividade caiu 30% em relação à safra anterior. “O meu investimento era para alto potencial e produzi 30% menos. Devido ao clima desfavorável, a média produzida não cobre os custos”, afirma. Com o preço da saca próximo de R$ 50, o agricultor conclui: “Estamos no vermelho”.
A Cooperativa Agroindustrial dos Produtores Rurais do Sudoeste Goiano (Comigo), com sede em Rio Verde, também sente o impacto. O presidente-executivo Dourivan Cruvinel destaca que a safrinha está 30% menor. “Talvez fosse o lucro que o produtor ia ganhar no ano. Com isso, ele mal paga os custos.” Cerca de 20% da receita bruta da cooperativa em 2025, de R$ 14,1 bilhões, veio do recebimento de milho e sorgo. Com a cotação média de agosto próxima de R$ 50 a saca, os 4 milhões de toneladas a menos representam aproximadamente R$ 3,5 bilhões que deixam de circular na economia do interior.
Além do recurso que não entra no caixa, a margem da produção colhida caiu. O gasto com insumos aumentou 6,6% para o milho na região da cooperativa, e o custo operacional dos fazendeiros cresceu até 9%. Lucas Lopes, assessor técnico da Faeg, explica que a menor disponibilidade de grãos afetará a demanda das agroindústrias, como fábricas de ração e usinas de etanol de milho que iniciam atividades em breve. A alternativa será buscar o cereal em estados vizinhos. Só a Inpasa, em Rio Verde, prevê demandar 2 milhões de toneladas por ano.
O engenheiro agrônomo Enio Fernandes, que atua na região, observa que, mesmo com a quebra, os preços do milho não reagiram, pois a colheita em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná tem sido satisfatória. “Ao invés de ter renda, está entrando prejuízo. O próximo dinheiro só entrará na conta do produtor em março de 2027, com cenário de restrição de crédito”, avalia. O pior cenário, segundo ele, é para pequenos produtores e comerciantes, que enfrentam juros mais altos e já sentem o reflexo nas cidades.