Sicoob alerta para impacto do El Niño na safra de verão e ajusta oferta de crédito rural

O Sicoob reforçou a atenção para a ocorrência do El Niño na próxima safra de verão, mesmo com grande parte de sua carteira de crédito rural fora das regiões potencialmente afetadas pelo fenômeno climático. A cooperativa financeira também reservou parte do funding para eventuais renegociações de financiamentos de produtores impactados pelo clima.

Raphael Silva de Santana, gerente de Agronegócios do Sicoob, afirmou que a oferta de crédito para a safra 2026/27 foi calibrada e poderia ser maior que os R$ 70 bilhões anunciados nesta segunda-feira (6/7) se não houvesse a perspectiva de um super El Niño no país. “Colocamos uma projeção robusta de crescimento, de R$ 60 bilhões para R$ 70 bilhões, mas já contando que pode ter problemas em algumas áreas. O crescimento poderia ser ainda maior, liberar até mais do que os R$ 70 bilhões”, disse em coletiva de imprensa.

Santana destacou que os estados de maior atuação do Sicoob — Minas Gerais, Espírito Santo, Santa Catarina, Rondônia, São Paulo e Goiás — não devem ser afetados pelo El Niño. Já no Rio Grande do Sul, onde a presença da cooperativa ainda é recente, apenas R$ 2 bilhões devem ser direcionados para financiamentos aos produtores gaúchos. “É um cenário complicado e complexo de El Niño, mas onde ele vai prejudicar mais o país não são áreas onde o Sicoob tem atuação forte. No Rio Grande do Sul, a nossa exposição não é tão alta. Em Mato Grosso, onde pode haver seca, a atuação também é recente”, explicou.

Tobias Fragoso, superintendente Financeiro do Sicoob, reforçou que o planejamento de cada Plano Safra inclui reserva de valores para eventuais prorrogações ou renegociações de parcelas de produtores afetados por frustrações de safra e renda em função do clima. “Todo Plano Safra no Sicoob é planejado com muita antecedência. Há recursos destinados a renegociações em função de eventos climáticos, existe uma reserva de funding para esse tipo de situação”, disse.

O Sicoob também aposta em instrumentos de gestão de risco climático, como seguro rural para pecuária, maquinário e porteira fechada. A falta de anúncios sobre a subvenção às apólices foi sentida pela cooperativa. Por atuar com o público da agricultura familiar, a cooperativa é operadora do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), mas tem migrado para outras ferramentas, como o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). Testes foram feitos no fim da safra 2025/26 para novos modelos que ofereçam melhor experiência aos cooperados com o seguro.

Inadimplência em alta

A carteira de agronegócios do Sicoob não passou imune pela alta na inadimplência que assola o mercado de crédito rural. O índice mais que dobrou nos últimos quatro anos, passando de 0,8% em 2022 para 2% em 2026, patamar considerado “respeitável” pelo diretor-presidente, Marco Aurélio Almada. Mesmo assim, a cooperativa vê espaço para crescer. “Diante da adversidade, alguns agentes financeiros se retraem. Quando eles se retraem, os tomadores de crédito ficam em dificuldades. O Sicoob, por ser uma cooperativa, parte do ponto de vista do produtor rural, que precisa do crédito”, disse Almada. “Ainda que de maneira mais contida, vamos continuar avançando no crédito rural.”

A carteira de agronegócios do Sicoob é de R$ 95 bilhões, dos quais R$ 3,5 bilhões estão em operações com atrasos superiores a 90 dias. “É uma inadimplência que o Sicoob nunca teve no crédito rural, mas ainda muito menor do que a do mercado”, afirmou Raphael Silva de Santana. Ele mencionou ainda a alta nos pedidos de prorrogação de operações, que saltou de R$ 960 milhões na safra 2024/25 para R$ 1,6 bilhão em 2025/26.

A alta na inadimplência já gerou reflexos na atuação da cooperativa. Apesar de ter expandido a oferta de crédito em quase 18%, para R$ 70 bilhões na safra 2026/27, o foco será nos recursos controlados, com taxas de juros fixas, e na expansão de 35% do montante equalizado, de R$ 14,4 bilhões no ciclo 2025/26 para R$ 19,4 bilhões. O crédito concedido por meio de Cédulas de Produto Rural (CPRs), financiadas a taxas de mercado e que concentram a maior parte do endividamento da carteira, vai diminuir quase 35%. “Sabemos da importância dos recursos livres, mas nossa maior inadimplência foi em CPR. Naturalmente, recua essa carteira. Nos recursos controlados, do Pronaf e Pronamp, a inadimplência ficou estável”, relatou Santana.

O diretor-presidente, Marco Aurélio Almada, disse que é feito um esforço para que o cooperado não fique desassistido em momentos de turbulência. “O agente de mercado é muito sensível a hipóteses de inadimplência e isso gera transtornos para quem precisa continuar desenvolvendo seu negócio. A inadimplência preocupa, é respeitável, mas ela ainda permite que a gente possa continuar avançando com negócio de crédito rural. Historicamente, é na adversidade que o cooperativismo faz a diferença.”

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