SLC Agrícola e Bom Futuro disputam direito de preferência na compra de terras da Radar em MT

A venda de um conjunto de propriedades rurais do Grupo Radar — empresa que tem a Cosan como acionista — gerou uma competição inédita entre duas gigantes do agronegócio brasileiro: SLC Agrícola e Bom Futuro. Ambas as companhias afirmaram exercer o “direito de preferência” para adquirir o chamado Bloco Mato Grosso, composto por 41.214 hectares de área física, dos quais cerca de 28,8 mil hectares são agricultáveis.

O negócio, avaliado em R$ 1,85 bilhão, será realizado na modalidade “porteira fechada”, em caráter indivisível e em igualdade de condições com a proposta recebida pelas proprietárias dos ativos. A SLC Agrícola foi a primeira a comunicar que exerceu seu direito de preferência. A companhia já opera aproximadamente 17,6 mil hectares da área agricultável do bloco. Logo depois, a Bom Futuro, do empresário Eraí Maggi, informou que, como arrendatária de terras da Radar, também exerceu seu “legítimo” direito de preferência. Em nota, a Bom Futuro destacou que o investimento tem sinergia com as demais propriedades da empresa e está alinhado à sua estratégia de crescimento em Mato Grosso, estado onde atua há mais de 44 anos.

No caso da SLC, o pagamento seria dividido em duas parcelas: um sinal de R$ 700 milhões, depositado em conta vinculada em até cinco dias úteis, e o saldo de R$ 1,15 bilhão, previsto para a assinatura das escrituras públicas de compra e venda, até 30 de outubro de 2026. A operação ainda depende de condições precedentes, como eventual aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e a assinatura das escrituras.

Em reunião realizada em 25 de junho, o Conselho de Administração da SLC Agrícola aprovou por unanimidade o exercício do direito de preferência e autorizou a diretoria a adotar todas as medidas necessárias para concluir a operação. O conselho também autorizou a diretoria a iniciar negociações para uma eventual “desmobilização seletiva de determinados ativos imobiliários rurais”, como parte da estratégia de otimização do portfólio de ativos.

Análise do Citi aponta que, para a SLC, a operação deve elevar a pressão sobre o fluxo de caixa em meio ao cenário de altas taxas de juros no Brasil. O banco projeta aumento na alavancagem da companhia, que pode chegar a 2,7 vezes a relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado. Além disso, a taxa de retorno das terras próprias é considerada pequena, com retorno esperado em cerca de dez anos. “Podemos ver números mais baixos no próximo ano, dados os prováveis impactos negativos do forte El Niño, enquanto as taxas de juros no país ainda podem estar em níveis altos”, afirmou o analista Gabriel Barra. O benefício da aquisição, segundo ele, está principalmente em pagamentos de arrendamento mais baixos, mas o equilíbrio entre o custo de oportunidade (Selic a 14,25%) e o custo de arrendamento “não parece favorável (~5%)”. Em contrapartida, a aquisição deve gerar leve aumento no Ebitda, com expectativa de que a empresa adicione 3 mil hectares físicos na próxima safra e os 8 mil hectares restantes na temporada 2028/29.

O desfecho da disputa entre SLC e Bom Futuro dependerá da análise do direito de preferência e do cumprimento das condições estabelecidas. O mercado acompanha de perto o desenrolar dessa negociação, que envolve uma das maiores áreas agricultáveis do país.

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