Soja: cultivares resistentes à seca são aposta contra o El Niño no Norte e Nordeste

O El Niño já começa a mudar o planejamento de produtores de soja no Norte e no Nordeste, regiões que devem enfrentar redução no volume de chuvas e estão entre as mais afetadas pelo fenômeno no segundo semestre. Diante desse cenário, a principal medida adotada pelos agricultores tem sido a busca por cultivares mais tolerantes a condições climáticas extremas.

Estratégia de resistência à seca

O agricultor João Antônio Gorgen, de Riachão das Neves (BA), afirma que vai priorizar investimentos em tecnologias que garantam boa produtividade mesmo em situações adversas. “Não vamos mexer naquilo que vai afetar nossa produtividade, mas sim em coisas que podem esperar para o próximo ano, como troca de máquinas. A ideia é comprar cultivares que sejam um pouco mais resistentes a longos períodos de seca, que deem mais segurança em períodos críticos do clima”, diz.

Na mesma linha, Pedro Foresto Crispim, de Goiatins (TO), acredita que os produtores precisarão de cautela nas decisões de investimento para a safra 2026/27. “Vamos escolher com mais assertividade sementes mais robustas, para tentar mitigar ao máximo o risco de perdas”, afirma. Crispim pretende plantar 500 hectares de soja, mesma área do ano anterior, mas acredita que a área total da oleaginosa no país deve cair no próximo ciclo devido ao quadro de custos elevados e margens apertadas.

Riscos na semeadura e no enchimento do grão

O aumento das temperaturas e a alteração no regime de chuvas tendem a afetar dois momentos críticos da soja: a semeadura e o enchimento do grão. “A chegada da umidade necessária para o plantio pode atrasar, ou pode chover a ponto de os produtores se animarem para plantar, mas depois faltar chuva, exigindo replantio”, explica Eduardo Martins, diretor do Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS).

Além disso, o pico do El Niño deve coincidir com as fases de desenvolvimento da oleaginosa, entre dezembro e fevereiro. Segundo o especialista, dependendo da intensidade do fenômeno, há riscos para a produtividade, o que torna ainda mais decisivo o bom planejamento da safra. É preciso avaliar, por exemplo, se vale a pena investir na segunda safra, buscar variedades que tolerem estiagem e melhorar o aproveitamento de insumos aplicados no solo.

Medidas de longo prazo

Para Martins, o El Niño já se tornou um elemento estrutural do clima e continuará ocorrendo, exigindo ações com efeitos duradouros. Entre elas, destaca o investimento em genética de cultivares voltadas para a resposta a extremos climáticos, e não apenas para o ganho de produtividade. A transição para a agricultura regenerativa também pode contribuir para tornar as lavouras mais resistentes à seca.

“Muitos agricultores se acostumaram com a resposta natural da planta de soja, que se desenvolve bem com pouca água, e com manejo intenso em insumos químicos. Agora, é preciso mudar o modelo de produção para um mais resiliente ao clima”, conclui.

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