A adoção de tecnologia no agronegócio brasileiro avança em ritmo acelerado. Segundo o Sebrae, 58% das grandes propriedades já processam dados em tempo real, enquanto 36% das pequenas também adotaram essa prática. No entanto, um paradoxo preocupa: apesar do aumento no uso de Inteligência Artificial (IA) e Internet das Coisas (IoT), a produtividade por hectare permanece estagnada.
A safra 2025/2026 deve atingir 360,1 milhões de toneladas, crescimento de 2,2% puxado principalmente pela expansão da área plantada — também de 2,2%. A produtividade, porém, se mantém estável em 4.311 kg/ha. Ou seja, planta-se mais para crescer em volume, não em eficiência. Em um cenário de margens apertadas, custos elevados e juros altos, o setor precisa urgentemente melhorar a produtividade real, sob risco de apenas sobreviver.
A tentação é investir pesado em tecnologia, esperando que IA, IoT e sistemas ERP resolvam tudo. Muitas empresas adquirem softwares de ponta, instalam sensores inteligentes, treinam equipes e, seis meses depois, o custo não caiu e a produtividade não subiu. O que faltou? A integração com a gestão.
Dados fragmentados entre sistemas, decisões que levam semanas e lideranças que não interpretam as sugestões da IA são problemas comuns. A agricultura domina hardware e software, mas ainda mantém práticas antiquadas de governança de risco. Como resultado, os insights gerados pela tecnologia permanecem subutilizados.
Imagine uma propriedade que integra gestão e tecnologia de forma real. Um ERP central conecta lavoura, fábrica, logística e finanças em um único fluxo. Os dados fluem continuamente, e decisões sobre alocação de áreas, planejamento de colheita e gestão de insumos saem em dias, não em semanas. O resultado é um crescimento expressivo na lucratividade. A mensagem é clara: a competitividade vem da gestão integrada, não da quantidade de soluções tecnológicas empregadas.
Para o campo, governança digital significa responder a perguntas como: quem é responsável pela qualidade dos dados no ERP? Quem valida? Quem decide o que a IA deve fazer? A maioria das propriedades não tem respostas claras. O ERP precisa ser um verdadeiro integrador. Quando toda a cadeia produtiva está no mesmo sistema, é possível enxergar gargalos em tempo real. Por exemplo, uma decisão de alterar a colheita pode impactar toda a operação, e você saberá disso em minutos, não em semanas. A IA valida hipóteses; o gestor decide. Sem essa estrutura, a tecnologia permanece subutilizada, cara e frustrante.
O cenário global reforça essa urgência. Tensões comerciais, como as tarifas norte-americanas e as restrições da União Europeia às carnes brasileiras, variabilidade climática (como o El Niño) e custos crescentes pressionam por mais eficiência. Ao mesmo tempo, surgem oportunidades: a Lei 15.042/2024 abre o mercado de carbono, com potencial de R$ 100 bilhões por ano. O mercado de bioinsumos alcançou R$ 6,2 bilhões em 2025, crescimento de 15%, segundo a CropLife Brasil. Biodefensivos e biofertilizantes ganham espaço. Quem tiver gestão estruturada conseguirá capturar essas novas receitas; quem tiver dados fragmentados nem verá a oportunidade.
Quem começar a estruturar a governança digital agora ainda terá tempo de capturar vantagem competitiva. As primeiras a integrar gestão com tecnologia de verdade manterão margens em contextos desafiadores. As outras reduzirão escala ou deixarão de competir. Vale a reflexão: tenho dados fragmentados? Minhas decisões levam três semanas ou três dias? Minhas lideranças entendem IA? Quem é responsável pela qualidade dos dados? Se a resposta for ‘não’ para qualquer uma dessas perguntas, o problema não é de tecnologia, mas de gestão. E essa questão se resolve quando começamos a pensar diferente e, de fato, pretendemos alterar o patamar de resultados do negócio.
Por André Paranhos, vice-presidente da unidade de negócios da Falconi especializada em Agronegócio e Indústria de Consumo. As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da Globo Rural.