Com a grande final da Copa do Mundo de 2026 entre Espanha e Argentina, surge também uma disputa fora dos gramados: afinal, qual país produz o melhor vinho? Para responder a essa pergunta, o presidente da Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo (ABS-SP), Mario Telles Jr., explica as principais diferenças entre as duas tradições vinícolas.
De acordo com dados da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), a Espanha é o terceiro maior produtor mundial, com 28,7 milhões de hectolitros em 2025, enquanto a Argentina produziu 10,8 milhões de hectolitros, liderando na América do Sul. Em área cultivada, a Espanha tem 919 mil hectares de vinhedos, contra 196 mil hectares da Argentina.
“A Argentina é, classicamente, o país da Malbec, o país de uma uva. A Espanha, embora também tenha uma uva emblemática, que é a Tempranillo, se baseia menos na uva e mais nos cortes. Ou seja, eu diria que são estágios de evolução diferentes”, afirma Telles Jr.
O especialista destaca que a vitivinicultura argentina está fortemente ligada à altitude, com vinhedos que chegam a 3 mil metros perto da Cordilheira dos Andes. Já na Espanha, a diversidade regional é o ponto forte: “Cada lugar produz uma coisa diferente, desde vinhos muito quentes e potentes até vinhos elegantes. Você encontra, por exemplo, a Ribera del Duero, terra do famoso Vega Sicilia, cujos vinhos lembram mais o estilo de Bordeaux. Há também as famosas cavas espanholas, que, para mim, são o modelo mais próximo do champanhe”.
Para Telles Jr., as diferenças são tão marcantes que não faz sentido uma comparação direta. “No fundo, quando você começa a comparar, realmente não há um termo de comparação.”
Tradição e estilos diferentes
Na avaliação do sommelier, os vinhos espanhóis costumam apresentar maior complexidade, enquanto os argentinos se destacam pela pureza. “Os argentinos conseguiram pegar a uva Malbec, que na França produz, em sua grande maioria, vinhos mais rústicos, especialmente na região de Cahors, no sudoeste do país. Ao plantá-la em altitudes entre 900 e 1.000 metros, transformaram essa uva em uma completamente diferente: elegante, fina e floral. Ou seja, mudaram o caráter da Malbec. Foi um daqueles casos em que o aluno ficou melhor do que o professor.”
Assim como a Argentina é reconhecida pela Malbec, a Espanha tem na Tempranillo sua principal variedade. “A Tempranillo tem a capacidade de se manifestar de várias formas. Na Rioja, por exemplo, ela resulta em um vinho mais elegante e fino, completamente diferente daquele produzido na Ribera del Duero. É a mesma uva, mas com expressões distintas.”
Custo-benefício
Segundo Telles Jr., a proximidade geográfica faz com que os vinhos argentinos sejam, em geral, mais acessíveis ao consumidor brasileiro. “Todo vinho europeu exige uma exportação mais trabalhosa e, por isso, acaba custando mais.” Ainda assim, ele pondera que preço não deve ser o único critério. “Particularmente, acho que essa história de um vinho ser caro é relativa. Você pode degustar um vinho às cegas e perceber que ele é tão bom quanto um Bordeaux.”
Na avaliação do especialista, um rótulo aparentemente mais caro pode representar um melhor custo-benefício. “Se ele custa um pouco mais do que aquilo a que estamos habituados, isso não significa que seja caro. Pelo contrário, ele pode ser barato, porque um vinho francês equivalente custaria quatro ou cinco vezes mais”, concluiu, destacando que uma boa degustação não tem preço.