Pela segunda vez consecutiva, a amêndoa de cacau Alvorada 01, cultivada em Medicilândia, no Pará, foi eleita a melhor do mundo no Cacao of Excellence (CoEx), principal premiação global de qualidade do cacau. A conquista é dos produtores Miriam Federicci e Leomar Vieira, que mantêm uma área de apenas três hectares dedicada ao cacau fino.
Uma receita de campeã
Considerada a capital nacional do cacau, Medicilândia entrega parte do segredo do sucesso. O casal cultiva cerca de 350 pés da variedade Alvorada 01, conhecida por notas florais e terrosas, que praticamente preservam o gosto puro da amêndoa no produto final. “O chocolateiro gosta dessa característica, porque não dá adstringência. Com nossa amêndoa, o chocolate tem sabor do cacau de verdade”, afirma Miriam.
O manejo é criterioso. A colheita acontece quando o cacau atinge a maturação perfeita. Os frutos descansam por três dias no chão, são amontoados e quebrados no mesmo dia. Em seguida, começa a fermentação: 48 horas no cocho, primeira revirada e mais cinco dias de reviravoltas.
Reconhecimento internacional
O CoEx ocorre a cada dois anos e recebe amostras pré-selecionadas por entidades chanceladas de cada país. No Brasil, a seleção é feita pelo Centro de Inovação do Cacau (CIC). Em 2024 e 2026, a Alvorada 01 levou a medalha de ouro. Na edição deste ano, em Amsterdã, o chef confeiteiro Giacomo Pischiutti descreveu a amêndoa como de “acidez vibrante e integrada a notas de frutas vermelhas, amarelas e nuances florais”.
Origem e expansão
A planta foi encontrada por acaso em 2017, na roça da sogra de Leomar. Batizada de Alvorada 01, ela é um híbrido da Ceplac, típico da Amazônia. “Fiz clones dela para conquistar o mundo”, conta o produtor. O casal também destaca o apoio da Emater-PA, que auxilia desde as primeiras mudas até a regularização de documentos como CAR e CARF.
As amêndoas premiadas são vendidas para São Paulo, Espírito Santo, Brasília e Rio Grande do Sul. A Monjolo Chocolates, de Campinas, usa a Alvorada 01 e já conquistou medalhas no Prêmio Bean to Bar Brasil. Com a demanda crescente, a dupla comprou uma área em Altamira (PA) e plantou mais 2.500 mudas da variedade.
Miriam não quer parar por aí. Durante a Expocacau, em Ilhéus (BA), ela entregou novas amostras ao CIC e já projeta o terceiro título mundial em 2028. “Não adianta chegar ao pódio e depois desaparecer. Queremos nos manter”, afirma.