Se o leite vem das vacas, o que as fazendas de leite fazem com os bezerros que nascem machos? Essa pergunta, que já foi comum nos círculos pecuaristas, ganhou novas respostas ao longo das últimas décadas, impulsionadas por avanços genéticos e pela demanda internacional por carne bovina.
Antes da popularização do sêmen sexado — tecnologia que permite ao pecuarista escolher o sexo da cria —, a proporção de nascimentos era praticamente de 50% machos e 50% fêmeas. Hoje, grandes propriedades conseguem elevar significativamente a participação de fêmeas, mas os machos ainda nascem e precisam de um destino.
Exemplo de aproveitamento: Fazenda São José
Um caso representativo é o da Fazenda São José, em Tapiratiba (SP), maior produtora de leite do país e sede da marca Fazenda Bela Vista. Com 2.750 vacas em lactação e produção diária de cerca de 120 mil litros, a propriedade lidera o ranking Abraleite/MilkPoint 2026. Nela, as novilhas são inseminadas 100% com sêmen sexado, enquanto as multíparas (com duas ou mais crias) utilizam sêmen convencional. Com isso, 72% dos nascimentos são de fêmeas — antes eram 50%.
Os bezerros machos, que antes eram vistos como problemas, agora se tornaram uma nova frente de negócios. A fazenda adaptou antigas instalações, antes usadas para fêmeas, e passou a engordar os machos com o excedente da alimentação das vacas leiteiras. Esses animais são abatidos com cerca de 18 meses de idade, superprecoces, e vendidos a frigoríficos da região como “boi China”, destinado à exportação.
Mudança de paradigma no setor
O professor Carlos Bondan, coordenador do curso de Medicina Veterinária da Universidade de Passo Fundo (UPF), lembra que, até pouco tempo, machos de vacas leiteiras eram descartados ou usados na produção de vitelo (carne de bezerros jovens). “Isso porque eram vistos como animais de alto custo até chegarem à idade adulta, e o preço obtido não compensava” — explica. “Mas as coisas vêm mudando, e acredito que o motivo esteja relacionado com a falta de carne bovina no mercado internacional”, completa.
Gado leiteiro no mercado de carne exportação
A comercialização de gado leiteiro para exportação de carne é cada vez mais comum. Segundo o zootecnista Felipe Fabbri, consultor de mercado da Scot Consultoria, a raça não é determinante para atender ao mercado chinês. “No final, tudo é carne. A única exigência da China é que o boi abatido, independentemente de ser holandês, girolando, senepol ou angus, tenha padrão com até 30 meses”.
Historicamente, esses animais recebiam bonificação menor, mas hoje o “boi China” tem valor de mercado levemente superior ao gado comum — cerca de R$ 2 a R$ 3 por arroba, segundo Fabbri. “É um aspecto produtivo que traz renda para a propriedade e agrega valor ao sistema operacional”, avalia.
Assim, os bezerros machos de fazendas leiteiras deixaram de ser um incômodo para se tornar uma oportunidade econômica, aliando genética, bem-estar animal e estratégia de mercado.