O Brasil precisa se preparar e atuar de forma estratégica na nova geopolítica mundial, com uma política de Estado que envolva o setor privado. Essa foi a avaliação de embaixadores e especialistas que participaram da mesa redonda “O Agro na Geopolítica”, realizada nesta segunda-feira (10/8) durante o Congresso Brasileiro do Agronegócio, em São Paulo.
O embaixador do Brasil no Marrocos, Alexandre Parola, alertou que o plano da China de reduzir sua dependência de importações deveria “preocupar imensamente” o Brasil e impõe ao agronegócio brasileiro a tarefa de se reinventar. “Eles vão conseguir reduzir (a dependência externa). Diversificar parcerias não é mais uma opção. É uma necessidade. Como o Brasil vai fazer se a China passar a comprar metade da soja?”, questionou.
Parola afirmou que o país precisa se preparar para um mundo mais “perigoso” e não pode mais ser surpreendido por mercados que se fecham ou demandas que se reduzem. “Precisamos nos preocupar, porque o mundo mudou.” Ele avaliou que esse novo momento geopolítico é estrutural, não passageiro, e está se formando em torno de dois novos polos globais: Estados Unidos e China. Ao contrário de disputas passadas, não se trata de “exportar” regimes, mas de estabelecer zonas de conforto para garantir segurança.
Na avaliação de Parola, o Brasil tem “cartas para jogar”, especialmente em segurança alimentar e energética. “Se uma das mudanças da volta da geopolítica é que a vantagem comparativa deixou de ser critério e passou a ser a segurança, esses ativos não são só de mercado. São ativos de poder.”
O embaixador Braz Baracuhy, especialista em geopolítica, defendeu que o Brasil defina claramente que tipo de relação quer ter com os Estados Unidos e a China. O país precisa fazer valer seu peso na segurança alimentar, energética e também mineral. “São eixos de inserção internacional que precisam ser considerados. E não é só uma decisão de Estado. É uma decisão de Estado que traz o setor privado junto.”
Baracuhy observou que a globalização promovida pela integração econômica está dando lugar a uma era de globalização geoeconômica, na qual prevalecem a rivalidade geopolítica e a segurança econômica. Ele explicou que EUA e China tentam exercer influência de formas diferentes: a visão americana é de uma Eurásia dividida entre poderes regionais, enquanto a chinesa enxerga a região integrada. “E isso não é só um problema do Brasil. Todos estão vivendo o mesmo dilema, de como se posicionar nesse jogo internacional.”
Sobre o Estreito de Taiwan, Baracuhy afirmou que a situação ainda é relativamente tranquila em comparação com outros pontos do mundo, como o Estreito de Ormuz, mas requer atenção. “O Estreito de Taiwan é o centro de gravidade da geopolítica global, mas isso não leva a um conflito. Há muitas possibilidades e um incentivo à diplomacia, mas, se as condições mudarem, essa calma, talvez, não permaneça.”