O governo brasileiro sinalizou estar disposto a impor sanções comerciais aos Estados Unidos, como reação ao tarifaço que atinge diversos setores da economia, entre eles o agronegócio. No entanto, há quem defenda cautela nas ações do governo, sob o argumento de que os riscos podem ser maiores que os benefícios.
A Câmara Americana de Comércio (Amcham) avalia que o Brasil deve priorizar o diálogo e evitar a aplicação de contramedidas às tarifas dos Estados Unidos. Em nota, a Amcham diz que a aplicação da Lei de Reciprocidade pode gerar custos para empresas e tirar espaço de uma solução negociada.
“A Amcham reitera seu entendimento de que o caminho prioritário deve ser a intensificação do diálogo de alto nível e das negociações entre os dois governos”, afirma a nota.
Na última quinta-feira (13/8), o governo brasileiro iniciou a análise de uma possível aplicação da Lei de Reciprocidade contra os Estados Unidos. Aprovada por unanimidade pelo Congresso e sancionada pelo Executivo, a lei permite que o Brasil aplique sanções iguais às que recebeu de outros países.
A posição do governo veio depois que o governo americano aplicou tarifas de importação de 25% e outra de 12,5% contra produtos brasileiros. A decisão dos Estados Unidos resulta de investigações abertas com base na seção 301 da Lei de Comércio do país. Na justificativa de sua resposta, o Brasil avaliou que as tarifas americanas são arbitrárias.
“O Ministério das Relações Exteriores está notificando o governo dos Estados Unidos sobre o início do processo e solicitando a realização de consultas diplomáticas”, disse, na quinta-feira, o Itamaraty, em nota.
Em seu comunicado, a Amcham considera que a condução desses processos diplomáticos deve ser equilibrada e com avaliação criteriosa de seus possíveis efeitos, além de considerar a participação do setor empresarial. A entidade menciona uma pesquisa interna em que 90,5% das empresas consultadas defenderam a intensificação do diálogo diplomático com os Estados Unidos. A adoção de medidas de reciprocidade foi indicada como preferencial por apenas 3,2% dos participantes do levantamento.
“A Amcham considera que a adoção de eventuais contramedidas deve ser evitada, diante do considerável risco de elevar custos para empresas e consumidores, afetar cadeias produtivas e investimentos e levar a uma escalada comercial e política na relação com os Estados Unidos, reduzindo o espaço para o diálogo”, diz a nota.
“[Reciprocidade] É uma medida que você começa com ela e, depois, vai escalando, até chegar nas medidas mais radicais”, afirmou a senadora Tereza Cristina (PP-MS).
Uma indicação de que as conversas com o empresariado irão ocorrer veio do ministro da Fazenda, Dario Durigan. Ele disse que o primeiro passo será ouvir o setor privado brasileiro e estrangeiro para avaliar possíveis consequências de uma eventual sanção aos Estados Unidos. Durigan prometeu “muita cautela e muita responsabilidade” por parte do governo. “O processo de reciprocidade demanda oitivas de eventuais interessados e eventuais impactados.”
Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump devem se reencontrar na Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Em entrevista a podcasts, nesta semana, Lula disse que está tentando manter contato com Trump.
Como o tarifaço atingiu o agro brasileiro
A decisão dos Estados Unidos de tarifar o Brasil teve reações distintas no agronegócio. Setores incluídos na lista de exceções, que ficaram de fora das cobranças, manifestaram, ao menos, um alívio. Quem ficou sujeito à tarifa de importação lamentou o aumento de custos e a incerteza no comércio.
Um dos que comemorou foi o setor de café. Todas as categorias de produtos entraram na lista de exceções ao tarifaço, depois de uma articulação que envolveu a própria indústria americana. Os Estados Unidos importam 99% do café que consomem, e o Brasil é o principal fornecedor. A expectativa dos exportadores é a de recuperação do espaço no mercado americano. De janeiro a julho de 2026, as vendas para o país caíram 30,5% em comparação com o mesmo período no ano passado. Mesmo com a queda, o país continuou como o principal destino do produto brasileiro neste ano.
Entre os que ainda têm motivos para se preocupar, está o setor de açúcar e etanol. As exportações de açúcar do Brasil para os Estados Unidos estão sujeitas a uma cota, atendida pelas usinas da região Nordeste. O governo americano impôs a tarifa de 25% e deixou o produto de fora dos 12,5%, mas reduziu a cota do Brasil, de 156 mil para 100 mil toneladas. Mais recentemente, representantes da Casa Branca indicaram a possibilidade de recompor a cota, caso recebam propostas comerciais “satisfatórias”. Especialistas avaliaram as declarações como uma tentativa de pressão para facilitar a entrada do etanol americano no mercado brasileiro. Hoje, o biocombustível é taxado em 18%. O governo Trump reclama dessa cobrança, embora o produto brasileiro esteja sob uma taxa de 25% nos Estados Unidos.
Carne bovina, suco de laranja e alguns pescados também entraram na lista de exceções.